Arquivo Vivo

Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.

Vitória sobre o Sol

A primeira aparição do quadrado e também do monolito acontece em 1913, ainda não como quadro, mas como parte da cenografia. Apresentada como a última figura, o último imagem deste carrossel.

Malevich desenha a cortina de palco para a ópera futurista Vitória sobre o Sol, o quadrado fazendo ali sua primeira aparição, naquele ano, como desenho para uma cortina de palco, dividido na diagonal em preto e branco. A imagem 8, esse esboço a lápis com fragmentos de texto cirílico e formas pretas geométricas, pertence a essa mesma linhagem: Malevich voltou a desenhar cenografia para a peça mais de uma vez ao longo da vida, e sem decifrar a legenda manuscrita não consigo cravar se é o original de 1913 ou uma reprise posterior, mas o DNA cubo-futurista é inconfundível. O enredo da ópera já ensaia o que vai se repetir vinte e dois anos depois: o sol, símbolo do passado decadente, é arrancado do céu, trancado numa caixa e recebe um funeral dentro da própria peça. Malevich encenou o funeral do quadrado antes de encenar o próprio.

*Victory Over the Sun*. The first time in 1913, not as a painting but as stage design. For the Futurist opera Victory Over the Sun, a square makes its first appearance that year as a design for a stage curtain, divided diagonally into black and white. A curtain, not a canvas. A pencil sketch survives fragments of Cyrillic script beside black geometric forms. Whether it is the original design or a later restaging remains undetermined. The Cubo-Futurist hand is unmistakable. The opera’s plot already contains what would recur twenty-two years later: the sun, standing for a decaying past, is torn from the sky, locked in a box, and given a funeral within the performance itself. The square’s funeral preceded its maker’s.

A segunda vez que ele nasce é como pintura autônoma, na 0,10, Última Exposição Futurista de Quadros, exibida em Petrogrado entre dezembro de 1915 e janeiro de 1916, o Quadrado Negro pendurado no canto superior da sala (imagem 1), o lugar do ícone nas casas russas. Trocar o ícone pelo quadrado não é decoração, é proposição teológica sobre o que passa a presidir o espaço. O verso da tela original traz a inscrição “1913”, mas os historiadores acreditam que foi mesmo pintada em 1915, talvez porque Malevich quisesse parecer mais à frente do próprio tempo, um mito que colou. Ele pintou o quadrado outras três vezes na vida, a de 1929

Existe uma terceira camada, essa literal. Em 2015, pesquisadores do Tretyakov fizeram um raio X do exemplar de 1915, o rachado, imagem 5, e encontraram duas pinturas anteriores sob a tinta preta: primeiro uma composição cubo-futurista, depois uma protos suprematista visível nas rachaduras, e uma inscrição manuscrita, ainda em decifração, que os pesquisadores leem como referência a uma gravura satírica de 1897 do humorista francês Alphonse Allais: uma imagem inteiramente preta cujo título de época, hoje reconhecido como racista, já brincava décadas antes com a mesma piada visual do monocromático, o preto que apaga o que devia estar ali.

Hilma af Klint: A Árvore da Sabedoria (Série W, n°1, 1913) – Arquivo Vivo

Pelo menos um historiador contesta o ineditismo exato do achado, mas a lógica interessa mais que o veredito de autenticidade. O gesto fundador da abstração pura carrega, sob a superfície, um apagamento duplo: de uma piada anterior sobre invisibilidade e, na fortuna crítica, da precedência de Hilma af Klint, O quadrado não é origem, é cicatriz sobre uma origem anterior.

O gesto fundador da abstração pura oculta, sob sua superfície, um duplo apagamento: uma piada anterior sobre a invisibilidade e, na história de sua recepção, a precedência de Hilma af Klint, cujas próprias abstrações, datadas dos mesmos anos, permaneceram em grande parte desconhecidas. O quadrado não é uma origem. É uma cicatriz sobre ela não muito diferente de um método utilizado alhures, no qual linhas estruturais são preservadas sob camadas de combustão, permitindo que uma arquitetura anterior sobreviva intacta após a queima da superfície.

Ela nasce uma segunda vez como pintura autônoma na exposição “0,10” a Última Exposição Futurista de Pinturas, realizada em Petrogrado entre dezembro de 1915 e janeiro de 1916. O Quadrado Negro está suspenso no canto superior da sala, o lugar reservado aos ícones religiosos nos lares russos. Substituir o ícone não é um ato de decoração; é uma afirmação sobre o que governa o ambiente. A tela traz a inscrição “1913” no verso, embora provavelmente tenha sido pintada em 1915 talvez para fazer com que a obra parecesse mais à frente de seu tempo do que realmente estava. O mito perdurou. O quadrado foi pintado mais três vezes ao longo da vida do artista (até 1929).

Há literalmente uma terceira camada. Em 2015, pesquisadores da Galeria Tretiakov submeteram a versão de 1915 aquela com rachaduras a exames de raios X. Sob o preto, surgiram duas pinturas anteriores: primeiro, uma composição cubo-futurista e, depois, uma proto-suprematista, com cores visíveis pelas fissuras da tinta. Também foi encontrada uma inscrição manuscrita, ainda em processo de decifração, interpretada como referência a uma gravura satírica de 1897, feita por um humorista francês.

A morte fecha o círculo. Malevich morre em maio de 1935 e é velado sob os próprios suprematistas, o Quadrado Negro de novo no canto, quase citação do 0,10. Ele desenhou o próprio funeral: o corpo num caixão em forma de arquitetura, cercado pelas obras, o caixão pintado com quadrado, círculo e cruz, a trindade suprematista que reúne hoje no Museu Russo, o caminhão funerário pintado em estilo suprematista, um Quadrado Negro preso no para-choque.

Este tríptico apresenta as revolucionárias pinturas suprematistas de Kazimir Malevich: Quadrado Negro, Círculo Negro e Cruz Negra. Criadas originalmente em 1915 para a Última Exposição Futurista de Pinturas 0,10, essas obras reduziram a arte à pura forma geométrica e ao sentimento artístico. O conjunto exibido encontra-se no Museu Estatal Russo, em São Petersburgo.

O caminhão funerário é pintado com as cores do Suprematismo. Um “Quadrado Negro” está fixado em seu para-choque. As cinzas são enterradas em Nemchinovka, sob um marco de madeira pintado com um quadrado. O marco perde-se durante a guerra. Um memorial aproximado é erguido em 1988. O túmulo original só é reencontrado em 2012, durante obras. Uma exumação sucede a outra; o raio-X e a pá executam o mesmo gesto em registros diferentes.

A linha orgânica que falta na sua frase só pode ser a de Lygia Clark. O Estudo para Quebra da Moldura, 1954 é o contraponto exato dessa genealogia geométrica e funerária: onde o quadrado suprematista se fecha sobre si mesmo até virar túmulo, a linha de Clark rompe a borda do suporte, recusa a moldura como limite absoluto, antecipa os Bichos e o corpo participante que vem depois. É o gesto que escapa da tumba.

the artwork titled “Sixteen Miles of String (installation for ‘The First Papers of Surrealism’ exhibition)” was created by the eminent artist Marcel Duchamp in 1942 in New York City, United States

Duchamp entra como terceira posição, nem quadrado nem linha, rede. Sixteen Miles of String foi montado para a First Papers of Surrealism, que abriu em Nova York em outubro de 1942, e o próprio título já é uma lenda: registros de época sugerem que a extensão real do barbante ficava mais perto de uma milha, não dezesseis, o número inflado simplesmente colou. Na abertura, crianças brincaram de bola e amarelinha dentro da instalação, a pedido do próprio Duchamp, o que complica a leitura de puro obstáculo, a peça vira também playground. E há uma coincidência bonita no seu texto: “dezesseis” perde o prefixo e vira “seis”, exatamente como “seis” já mora dentro de “dezesseis” em português. A transmissão pratica, na sua própria escrita, o que descreve, um número que se decompõe e uma parte que sobrevive ao todo, do mesmo jeito que o mito de Malevich sobre a própria data sobrevive ao fato.

Piscina Do Secreto. Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro – RJ

Isso encosta direto nos fungos e nas plantas que ficam. É a mesma lógica em três registros: o que persiste sob o preto, o que persiste sob a terra revolvida, o que persiste sob o barbante que ainda transmite mesmo obstruindo a vista. Essa pilha de imagens serve tanto para o organismo por trás dos dois e é o mesmo: o que sobrevive ao apagamento, o arquivo por baixo da combustão.

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