Passei anos perseguindo o que eu acreditava ser um horizonte cultural legítimo. Saí de casa, vivi em condições instáveis, constantes mudanças em Londres, São Paulo, Berlim… Dediquei tudo o que tinha à ideia de que a cultura era uma força civilizatória que valia o sacrifício. Estudei, trabalhei, absorvi referências e construí uma prática de forma lenta e deliberada, confiando que seriedade e compromisso encontrariam seu lugar.
Porém o mundo não é estruturado em mérito ou rigor intelectual, mas como um circuito de influências agressivo, e um clube de vantagens que recompensa submissão e conveniência, não investigação ou pensamento crítico. Reconhecimento não é fruto da força do trabalho, mas de uma coreografia do pertencimento. O sistema metaboliza o que está disponível, reaproveita ideias sem reconhecer suas origens e faz isso com um cinismo que contradiz os ideais que afirma defender.

Me afastei desse video-game de pontos e recompensas para trabalhar com arte e educação com crianças no interior do Brasil, levando imaginação e cor a lugares onde os recursos culturais eram escassos. Na minha ausência, abriu-se espaço para que outros ocupassem ideias que eu vinha desenvolvendo há anos. Esse espaço parece um espelho crítico de uma prática crítica a si mesma. Ele reflete a forma como o sistema absorve e redireciona o que está vivo, não necessariamente o que é compreendido.
Essa dinâmica ecoa uma história da minha família. Meu avô acreditou ter recebido reconhecimento na caça submarina, até descobrir que o “prêmio” era uma piada cruel feita por pessoas que o viam como provinciano e ingênuo. A humilhação o destruiu. Sua experiência revela como sistemas construídos sobre ironia e exclusão podem devastar aqueles que se aproximam deles com sinceridade.

Eu não estou predestinado, mas caminhando e aprendendo. Estou reconhecendo que a estrutura na qual eu acreditava não se alinha aos meus valores nem ao meu modo de vida e trabalho. O custo de pertencer a essa coreografia que exige apagamento e conformidade estratégica é altíssimo. É infelizmente apenas o modo como o sistema opera.
Estou distante, mas não de criar. Navego por um mundo que confunde oportunismo com cultura. Desejo não ser mais um bobo da corte. Isso é lucidez.





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