Uma ressonância entre o Banheiro em Sympoiesis e as intervenções artísticas de Rist, Mullican e Rockman exige atenção. Todas as quatro obras compartilham uma rejeição fundamental da parede neutra e vertical da galeria. Em vez disso, operam por meio do parasitismo arquitetônico, infiltrando-se nas “entranhas” infraestruturais de um espaço e exigindo um reposicionamento físico, quase devocional, do corpo do espectador.




Abril 2026, Rio de Janeiro, Brasil
Rodrigo Garcia Dutra ~ Arquivo Vivo
Como seriam essas ressonâncias nestas intervenções específicas?
A Arqueologia da Infraestrutura
A colocação de lajes de aço por Mullican na sala de caldeiras do MoMA PS1 dialoga diretamente com a lógica espacial do banheiro. Tanto a sala de caldeiras quanto o banheiro são as entranhas utilitárias e ocultas da arquitetura, espaços definidos por encanamento, regulação térmica, dinâmica de fluidos e resíduos. Ao inserir seus símbolos no piso dessa zona funcional, Mullican trata a infraestrutura do edifício como um sítio arqueológico.


Isso espelha seu uso de CDs como “dispositivos anacrônicos” embutidos no piso. Nem as lajes de aço nem os discos ópticos servem mais às suas funções originais de armazenamento ou estrutura. Eles foram aterrados, forçados ao plano horizontal para se tornarem matéria reflexiva e estética. Ambos estabelecem uma economia temporal instável, marcando o piso não como uma fundação estática, mas como um local de sedimentação histórica.
A Ruptura Orgânica (Alexis Rockman)
Se Selbstlos im Lavabad, de Rist, representa terra líquida irrompendo de um nó nas tábuas do piso, a criatura de Rockman é a necessidade biológica da decomposição. A obra ocupa uma ruptura literal no reboco descascado, uma ferida na arquitetura. O detalhe da língua da criatura que emerge do vazio, ultrapassando a soleira da parede, ativa o buraco não como um mero elemento de enquadramento, mas como uma boca que respira e consome.

Isso se alinha com o conceito de “materialidade reativa”. A criatura de Rockman prospera no colapso estrutural do edifício, assim como o bicarbonato de sódio, a saliva e os resíduos domésticos que transformam seu piso em um sistema químico vivo. É a concretização do ciclo do “verme e da flor”: o reconhecimento de que a verdadeira simpoiese requer a aceitação do abjeto, da praga e da matéria orgânica que reivindica os ambientes construídos pelo homem.
Cultivando a Caverna



Em conjunto, essas obras enquadram o recinto arquitetônico não como um abrigo, mas como um corpo poroso e entrópico. A descida a uma estética deliberada, semelhante a uma caverna, onde texturas minerais, pigmentos e água convergem. Um banheiro doméstico abandona sua função estéril. Ele se torna uma gruta, uma cavidade primordial. Em um ambiente assim, a iluminação deixa de ser meramente funcional. A integração de iluminação especializada, como lâmpadas de cultivo para ambientes internos, não apenas revelaria os CDs e as reações químicas na penumbra, mas participaria ativamente do desdobramento biológico e óptico do espaço.
Ao tratar o chão como um local de acumulação e vazamento, a fronteira entre o tempo geológico (a lava, os minerais, o aço) e o tempo biológico (a saliva, o rato, a coluna curvada do observador) se dissolve completamente.

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