Arquivo Vivo

Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.

Combustão em Cadência

Diário de bordo: Camadas que revelam o que está por baixo quando algo é removido ou se decompõe. Algumas coisas já aconteceram, e me sentei para comer um abacate, beber água, respirar um pouco e olhar o mar. É um fundamento na areia causado pela ressaca, sobre a rocha, onde foi colocada areia por cima. Isso me lembra o filme Inimigo Meu (Enemy Mine, de 1985), em que o protagonista afunda em um pântano de lama ou areia movediça e é salvo por seu companheiro alienígena.

Enemy Mine, de 1985, cratera de areia na imagem com as estrias verticais escorrendo.

Quando cheguei, não tinha nenhuma ideia definida. Na verdade, trouxe uma lâmpada para fazer Lamp Painting, pois pinto lâmpadas e, quando as acendo, elas se transformam em bolas incandescentes, Vênus, planetas brilhantes. Trouxe alguns esmaltes e, como tenho mais em casa, fiz a única coisa que queria realizar naquele momento. Mas aí me lembrei de um quadrado, um retângulo, que encontrei outro dia e deixei guardado num canto. Ao reencontrá-lo, decidi aproveitá-lo para criar um novo Malevich Queer, como já havia feito antes. Inspirado no grau zero da abstração, segundo ele, embora Hilma af Klimt já experimentasse com abstração, apesar de sua atividade não ser pública na época. Era uma questão muito delicada.

Trago perspectivas que atravessam Staying with the Trouble Making Kin in the Chthulucene¹, Queer Ecologies e Inimigo meu (Enemy Mine 1985) para relembrar a história de sobrevivência e amizade entre o humano e o alienígena. Uma História sobre Guerra e Tolerância. O longa marcou época ao misturar ficção científica com uma bela mensagem de amizade. A história se passa em um futuro distante onde humanos e uma raça alienígena chamada estão em guerra. Durante uma batalha espacial, o piloto humano e o piloto alienígena caem em um planeta desolado e inóspito. O que torna a trama especial é que, para sobreviver, eles precisam deixar o ódio de lado e aprender a confiar um no outro. O filme é um verdadeiro clássico dos anos 1980 sobre tolerância, respeito às diferenças e superação.

Enemy Mine is a 1985 American science fiction action drama film directed by Wolfgang Petersen and written by Edward Khmara, based on Barry B. Longyear’s novella of the same name.

Major Tom, versão Schilling, 1983, dirigida por Peter Sinclair, o mesmo que naquele ano faria Boy George girar em Karma Chameleon. O astronauta não flutua livre pelo cosmos; está preso num ferro-velho, numa cápsula que já é sucata antes mesmo de decolar, enviando sinais por entre os destroços. A imagem que fica não é de conquista espacial, mas de um corpo transmitindo frequência de dentro de uma ruína.

O clipe em inglês apresenta imagens de arquivo da NASA e seus programas espaciais dos anos anteriores, junto com imagens estranhas de vários carros empilhados uns sobre os outros, num que parece um ferro-velho escuro, onde Schilling e outros aparecem dentro dessa pilha de veículos; depois há closes do cantor performando a música enquanto o fundo mostra imagens do espaço sideral. Uma fonte independente confirma essa cena central: o vídeo de “Major Tom (Coming Home)” se passa num ferro-velho, com Peter e sua banda sentados dentro de uma pilha de carros abandonados.

Genealogia mito do Major Tom

Bowie, “Space Oddity” (1969) cria o personagem. Astronauta que, no meio da missão, simplesmente desiste de voltar. “Planet Earth is blue, and there’s nothing I can do.” O herói espacial que escolhe a deriva, o silêncio, a desconexão como ato existencial.
Peter Schilling, “Major Tom (Coming Home)” (1983) não é continuação oficial, mas uma resposta/homenagem não-autorizada. Aqui o astronauta talvez esteja voltando ou é isso que ele diz para a torre de controle, enquanto os versos deixam ambíguo se é retorno físico ou só um sinal, uma última transmissão antes do apagão. “Four, three, two, one, Earth below us… this is Major Tom to ground control, I’m coming home.”

Bowie retoma o personagem em “Ashes to Ashes” (1980), antes mesmo do Schilling, e revela que Major Tom se tornou uma metáfora da metáfora: alguém preso em um loop. O mito muda de sentido, a aventura vira repetição, um arquivo de erros que nunca se resolvem.

Disclosure Day, 2026. Steven Spielberg

A segunda é um alienígena chamado, sem nenhuma poesia, In Vivo 17. Cativo há décadas numa organização que se chama Wardex, mantido em segredo por um sistema inteiro de Estado que jura estar protegendo a civilização do próprio conhecimento de si. Quando finalmente o vemos, alguém pergunta a pergunta certa: onde eles o mantinham, como cuidavam dele, ele estava sozinho? O ser é frágil, alto, quase transparente, e é exatamente essa fragilidade física que autoriza o cativeiro. O poder cósmico dele não está no corpo. Está em outro lugar, um lugar que quem o prende não sabe nomear, e por isso prende o corpo, que é a única parte capturável.

A terceira eu já conhecia antes de saber que a conhecia. Nove pares de cartão-postal. Anna Bella Geiger, 1976, Rio de Janeiro. De um lado, fotografias de indígenas Bororo, Suiá, Trumai, Uaika, publicadas pela revista Manchete durante a ditadura, cenas idealizadas de um cotidiano que a censura usava como cortina para esconder a violência real do Estado contra esses povos. Do outro lado, a própria artista, com filhas e amigas, reencenando as mesmas poses, na varanda do seu apartamento. Uma coluna diz Brasil Nativo. A outra diz Brasil Alienígena, com o meu despreparo como homem primitivo.

A inversão de Geiger é a chave que destrava as outras duas. Quem chegou depois, quem invadiu, quem se instalou por cima de um território que já tinha nome, língua, cosmologia e agricultura, esse é que deveria ser chamado de alienígena. Mas a lógica colonial troca os rótulos e faz o inverso: o povo originário vira estranho na própria terra, curiosidade de cartão-postal, espécime, souvenir. O invasor se autodeclara nativo por decreto de força.

As worsening economic conditions make the traditional heterosexual life script increasingly unattainable, JJ Croucher argues that society should look to queer life for guidance LGBTQIA+ marginalisation has created ingenuity and an ability to spin straw into gold.⁠
Read the full feature at the link in gaytimes bio.⁠
📝 @jj.croucher
🎨 @yosefphelan


Em Major Tom, o corpo humano que sai da Terra volta a ser tratado como sucata, como destroço, embora carregue um sinal que vale a pena escutar. Em Disclosure Day, o corpo alienígena, tecnologicamente e cosmicamente superior a nós, é capturado justamente porque no momento do contato ele está frágil, e essa fragilidade é lida como permissão. Em Geiger, o corpo indígena, originário, é etiquetado como o exótico, o estranho, enquanto o corpo colonizador se coloca no centro e chama a si mesmo de padrão.

Em todos os três casos, o poder de origem, de conhecimento, de pertencimento ancestral não protege o corpo. O corpo fica exposto, capturável, exibível, cartão-postal ou espécime de laboratório ou pilha de ferro-velho. E quem detém a força bruta no momento do encontro decide qual rótulo cola em quem.

“Loving The Alien” (released in 1985) explores David Bowie’s deep distaste for organized religion. The surrealist video combines metaphors regarding blind faith, historical fanaticism, and the yearning for answers from the stars, serving as a critique of human manipulation throughout the centuries.

The Meaning Behind the Song: The lyrics take a journey through the Crusades, citing “Templars and Saracens.” Bowie’s idea was to show how organized religion employs fear and violence, while humans continue to believe in bizarre things. Alien: In the song, the term represents the unknown or the “other.”

The chorus points out that people are capable of loving this “alien” or something distant (an invisible divine force) to the point of committing acts of madness and atrocity in the name of faith. Surreal and Kaleidoscopic Visuals: Unlike hyper-realistic productions, the music video embraces a theatrical, sci-fi art style.

The video features bizarre settings, projections, and lighting effects that reflect the mental confusion explored in the lyrics. Bowie wears exotic outfits and striking makeup, acting more like a cosmic narrator or a distant observer than a conventional character.

Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene

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