Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.
Luxúria como um excesso suave: no orvalho sobre os ombros das esculturas, no vapor dos corpos em repouso, na aparição súbita do sol. Fomos atravessados por bichos, névoa, pedras, plantas e tantos outros reinos ainda não percebidos. Evidências daquilo que se manifestou e não pôde ser previsto. O rito passou, mas seus traços ainda vibram nas imagens, nos sons, ondas, o pisar na areia seca e molhada, os corpos que se movem entre isso tudo. Sente? Respira. Entra.
Na alvorada sobre o Morro do Rangel, a Pedra do Pontal e a enseada da Praia Naturista de Abricó, um domo se erguia não como arquitetura, mas como pulmão do real: estrutura Nano política semi-orgânica de bronze e lona translúcida, vibrando em ressonância com os batimentos do sol nascente.
Proposição Nº 24 Pedra do Pontal 5AM 11 de Maio de 2025
“O dia cinza, a bruma espessa, os galhos pingando orvalho e os insetos dançando como sensores de outra linguagem.”
No ápice do rito, o Sol personificado surgiu entre nuvens como entidade. Ria. Queimava. Dizia sem dizer: “Você pediu para ver, agora veja.”
Sol como olho translúcido emergindo da névoa no pico da Pedra do Pontal,
O domo respirava luz, abrigo do delírio coletivo. É estética do sublime. Caspar David Friedrich mas invertido: Aqui não é o homem diante da natureza, mas a natureza dentro do homem, e ele imerso na máquina de névoa. e luz“ Aqui se encontram os seres, os sons, a pedra, a pressa do sol em abrir brechas no véu da manhã.” Um corpo nu, na praia naturista, mas por vezes vestindo apenas uma sunga vermelha, dançava entre as membranas. Uma escultura vestível, talvez larva ou casulo, acompanhava seus gestos. Insetos em forma de folhas vibravam cor e luz, frequências em camadas de verde lisérgico. Rochas, brisa, neblina e o som de atabaques imaginários se entrelaçavam numa orquestra sinestésica.
“Dá pra ouvir?” vídeo feito às 5h da manhã. Ouve-se grilos, pássaros, e um silêncio espesso como resina. As imagens produzidas deste encontro revelam uma alucinação documentada. Não são artworks, são evidências. Integram-se corpos, insetos, pedras e o abrigo bioluminescente em uma pintura-viva Sideral. Como Inauguração do Domo do Prazer, Kenneth Anger
Inauguration of the Pleasure Dome
O Corpo entre Luz e Membrana
Aleister Crowley, o “orgasmo mágico”Cocoon, Direção: Ron Howard. EUA: 20th Century Fox, 1985.
A leaf-shaped insect, with antennae arched like filaments of listening, lands on a volcanic rock by the sea. In the background, the ocean shimmers under the dawn—the sun, shrouded in mist, radiates amber tones. All around, there is an atmosphere of magnetic silence. The sky is clear, but time seems to bend. There is a sense of presence there. There are no human witnesses. The moment belongs to interspecies listening.
Na manhã translúcida de Abricó, Um inseto em forma de folha, com antenas arqueadas como filamentos de escuta, pousa numa rocha vulcânica à beira-mar. Ao fundo, o oceano resplandece sob a alvorada, o Sol encoberto por bruma irradia luz em tom âmbar. Ao redor, há uma atmosfera de silêncio magnético. O céu está limpo, mas o tempo parece dobrado. Há ali uma percepção de presença. Não há testemunhas humanas. O momento pertence à escuta interespécie. Não era o animal em si, mas o arranjo: o sol nascendo como lente líquida, o céu limpo de nuvens e saturado de vibração, o mar respirando com o dorso luminoso e, sobre a pedra, a folha que caminha, um corpo vegetal encarnado, portador de sincronia. O verde do inseto era tão vivo. cintilava. Um verde ácido, fosforescente, ancestral. Lisérgico sem química. Tecido ótico de outra ordem. E tudo, absolutamente tudo, parecia em posição: o astro, o bicho, a rocha, o observador ,um abrigo sutil havia sido traçado.
O calor do sol sobre a pele, um brilho expandido, sensorialmente molecular, impossível de narrar sem sentir.
O Abrigo/Shelter se comporta como um assentamento energético. Ancora. Plasma. Organiza. Como se desenhar uma estrutura, por mais rudimentar, abrisse poros nos tecidos do tempo-espaço. A instalação não era feita de madeira e barbante apenas, mas de intenção. Era, como dizia Lygia Clark, uma proposição viva. Esses momentos, dizíamos, parecem “contatos imediatos de não sei quantos graus”. Uma dobra cósmica atravessada por luz dourada e bichos que sabem da eternidade.
Teoria das cordas
Uma secção transversal de uma variedade de Calabi-Yau quíntica.
Teoria física de objetos unidimensionais quantizados com simetria conforme, que pode descrever a gravitação, a teoria de gauge e outros fenómenos.
“No entanto, nem todas as formas de compactificar as dimensões extras produzem um modelo com as propriedades certas para descrever a natureza. Em um modelo viável de física de partículas, as dimensões extras compactas devem ter o formato de uma variedade de Calabi-Yau. Uma variedade de Calabi–Yau é um espaço especial que normalmente é considerado hexadimensional em aplicações à teoria das cordas. Ele recebeu o nome em homenagem aos matemáticos Eugenio Calabi e Shing-Tung Yau.
Yau, Shing-Tung; Nadis, Steve (2010). The Shape of Inner Space: String Theory and the Geometry of the Universe’s Hidden Dimensions. [S.l.]: Basic Books. ISBN978-0-465-02023-2
Zemeckis, R. (Diretor). (1997). Contato [Filme]. Warner Bros.
No filme Contato, a dobra dimensional acontecia não na tela, mas no corpo e na areia. A praia deserta tornava-se ponte interdimensional.
Referências se multiplicam: Cocoon (1985), Contato (1997), Antonio Damasio. Sidarta Ribeiro e a topografia da consciência, Lygia Clark e o objeto-relacional, Donna Haraway e os acoplamentos multiespécie.
Corpo, Rito e Restos: Uma Pintura como Espaço de Acoplamento
Em “Linga Drome”, Rodrigo Garcia Dutra nos oferece não uma pintura, mas um corpo em combustão lenta. Um corpo-tela feito de camadas superpostas de tinta óleo, acrílica, tecido, solventes e papéis queimados. Detritos recolhidos do chão do ateliê se tornam elementos vivos da composição: galhos, cotonetes usados, argolas douradas, cacos de pratos de papier-mâché, tudo ressignificado não como lixos, mas como vestígios de uma experiência vivida, processada e transmutada.
Esta escrita se oferece como invocação, não como descrição. Um documento que se autodesenha. Uma liturgia para futuros encontros entre domos, seres e linguagens.
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