Arquivo Vivo

Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.

As empresas mentiram

YouTube No More

Eu tinha 23 anos e vivia no centro de uma São Paulo em ebulição. Os anos 2000 pareciam acelerar tudo: corpos, linguagens, afetos, imagens. DJs, travestis, designers, artistas, performers e coletivos ocupavam a cidade como se ela fosse um laboratório permanente de experimentação. Eu circulava por esse ecossistema com uma câmera na mão e uma urgência difícil de explicar. Fazia vídeos para todos, sem cobrar, movido menos pela ambição profissional do que pelo desejo de registrar uma cena que parecia acontecer rápido demais para deixar rastros.

Antes de o YouTube existir, eu já perseguia uma ideia que ele viria a popularizar: a circulação livre e imediata de imagens em movimento.

Entrei em Comunicação e Multimeios depois de abandonar o curso de cinema. A ruptura não foi apenas acadêmica, mas conceitual. O cinema que encontrei estava ligado à indústria, ao financiamento, à legitimação institucional. A promessa romântica de “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” parecia distante da realidade. O que eu buscava era outra coisa: autonomia, velocidade, experimentação.

Foi nesse contexto que descobri o HTML. Sozinho, programei uma página capaz de reproduzir vídeo dentro de um navegador. Hoje isso parece trivial; na época, tinha a força de uma revelação. Lembro de mostrar a tela para minha mãe e dizer: “Olha, o vídeo está tocando no computador”. A frase era simples, mas continha uma intuição poderosa: a imagem estava deixando de depender de suportes físicos e começava a habitar a rede.

Era menos uma conquista técnica do que uma percepção histórica. Algo estava mudando.

Pouco depois veio um dos primeiros celulares Nokia com câmera de vídeo. A tecnologia era rudimentar, mas a sensação era de expansão radical. Passei a filmar tudo: festas, ruas, apartamentos, bastidores, performances, encontros e desvios. Pessoas conhecidas e desconhecidas. O extraordinário e o banal.

Não era apenas documentação. Era uma prática de atenção.

A câmera transformava a cidade em arquivo e eu me transformava em seu operador incessante. Antes de “criador de conteúdo” se tornar uma categoria social, eu já acumulava horas de imagens produzidas fora das instituições culturais e dos circuitos oficiais de memória. Registrava uma comunidade, uma estética e uma época a partir de dentro, sem imaginar que aquele material um dia se tornaria testemunho.

Mas toda tecnologia cria suas próprias ilusões.

Durante muito tempo a internet pareceu oferecer uma promessa de permanência. Acreditávamos que publicar era preservar. Que armazenar equivalia a lembrar. Que as plataformas eram arquivos.

Não eram.

Com o passar dos anos, eu mudei. A euforia deu lugar à reflexão. A intensidade dos registros cedeu espaço a outros interesses e outras formas de investigação. Saí do centro da cena. Fui para Berlim. Fui para territórios mais introspectivos. Troquei a exposição pela observação.

Enquanto isso, o mundo digital se consolidava sob novas lógicas. Plataformas que nasceram com a retórica da democratização passaram a operar segundo critérios opacos, guiados por automatismos, interesses corporativos e regimes próprios de visibilidade.

Foi nesse contexto que o YouTube apagou todo o meu acervo.

Sem aviso relevante. Sem diálogo. Sem qualquer compreensão do que aqueles vídeos representavam. O algoritmo não viu memória, contexto ou trajetória. Não distinguiu documento de infração, arquivo de ruído, vida de dado.

O episódio revela uma contradição central da cultura digital contemporânea: entregamos nossa memória a plataformas privadas e depois nos surpreendemos quando elas exercem poder sobre ela.

O que foi apagado não eram apenas vídeos. Era um conjunto de evidências de uma experiência vivida. Um registro singular de uma cidade, de uma geração e de uma rede de pessoas que construíram formas alternativas de existência cultural. Quando uma plataforma remove esse material, não elimina apenas arquivos; intervém na própria possibilidade de narrar uma história.

O YouTube apagou um capítulo da minha biografia.

Mas não a biografia em si.

Porque a memória não reside apenas nos servidores. Ela persiste nos corpos, nas relações, nas lembranças e nas narrativas que sobreviveram ao desaparecimento dos arquivos. O gesto de apagar pode destruir o documento, mas não anula a experiência que o produziu.

Hoje entendo que a questão não é apenas o que foi perdido. É o que essa perda revela sobre nossa época. Confiamos às plataformas o papel de guardiãs da memória coletiva, mas elas operam segundo uma lógica que privilegia gestão de risco, moderação automatizada e valor econômico. Preservação histórica raramente faz parte da equação.

O YouTube apagou meus vídeos.

Mas eu continuo sendo o arquivo.

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