Arquivo Vivo

Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.

Campo Magma, 2025

A obra apresenta-se como um corpo compacto de 10,5 × 32 × 3 cm, onde moldura e pintura deixam de ser limites e passam a constituir um único organismo. No espaço estreito entre ambos, instala-se uma linha orgânica uma fenda mínima que funciona como membrana respiratória, zona de passagem e tensão. Esse intervalo, quase imperceptível, rompe a estabilidade do plano e transforma a superfície em um campo vivo, onde matéria e vazio se interpenetram.

A pintura-membrana é composta por tinta acrílica, tinta a óleo e orvalho, elementos que se depositam em camadas como sedimentos de tempo. O orvalho, incorporado como vestígio efêmero, introduz uma dimensão atmosférica: a umidade que toca a superfície torna-se parte da própria pele da obra, registrando um instante que se solidifica.

Campo Magma, 2025
10,5 × 32 × 3 cm
Tinta acrílica, óleo, orvalho e lascas de pedra ígnea / vulcânica Black Rock
Rodrigo Garcia Dutra

Objetos e fragmentos atravessam essa topografia pictórica, entre eles uma lasca de Black Rock, rocha ígnea formada a partir do magma profundo da Terra. De tonalidade escura e textura vítrea, marcada por veios brancos ocasionais, a Black Rock carrega em si a memória geológica do planeta. Utilizada em hardscapes e paisagens aquáticas, ela é conhecida por alterar o pH da água, modulando o ambiente ao seu redor. Aqui, sua presença deslocada do aquário para o campo pictórico cria um contraste entre o mineral ancestral e a delicadeza da pintura-membrana.

A inserção dessa rocha máfica densa, pesada, de origem vulcânica tensiona a leveza do orvalho e a porosidade da superfície. A obra torna-se, assim, um encontro entre forças: o magma e a umidade, o peso e a evaporação, o sólido e o dissolvido. A linha orgânica que atravessa o conjunto funciona como eixo de abertura, permitindo que esses materiais heterogêneos coexistam sem se fixarem em uma narrativa única.

O resultado é um microcosmo onde pintura, mineral e atmosfera se articulam como camadas de um mesmo corpo. A obra não se apresenta como imagem, mas como acontecimento: um ponto de contato entre processos geológicos, climáticos e pictóricos, condensados em uma escala íntima.

Plano Magma Uma membrana pictórica atravessada por uma linha orgânica, onde orvalho, pigmento e rocha ígnea se encontram para revelar o intervalo como força geológica um plano que respira, fissura e condensa o magma primordial em escala íntima.

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