O presente texto não se organiza como comunicação, mas como vestígio. Sua função não é ser imediatamente lido, mas persistir como índice de um processo em curso.
A noção de simpoiese, conforme elaborada por Donna Haraway, propõe sistemas que se produzem em conjunto, recusando a ideia de autoria isolada.




Neste contexto, o banheiro emerge como um sistema simpoiético: tinta, umidade, resíduos orgânicos, luz artificial e gesto humano constituem uma rede de co-produção onde não há hierarquia estável.
A retirada das fitas crepe, descrita como striptease, deve ser compreendida como operação de desvelamento estrutural. Não há erotização do corpo aqui, mas exposição de camadas operativas. A superfície pictórica se revela como campo estratificado, onde cada camada retém a memória de forças aplicadas: pressão, contenção, vazamento.
Os CDs reinseridos na pintura funcionam como dispositivos anacrônicos. Sua presença introduz uma temporalidade deslocada, onde tecnologias obsoletas são reinscritas como matéria estética. Eles deixam de operar como mídias de armazenamento e passam a atuar como superfícies reflexivas, instaurando uma economia ótica instável.
A incorporação de materiais não convencionais como bicarbonato de sódio, saliva e resíduos domésticos desloca a pintura para o campo da materialidade reativa. A obra deixa de ser representação para tornar-se processo. A superfície não é apenas suporte, mas um sistema em transformação contínua, suscetível a reações químicas, sedimentações e possíveis colapsos.
Nesse sentido, a decisão entre fixar ou permitir a queda das camadas não é apenas técnica, mas epistemológica. Fixar implica estabilizar o processo, convertendo-o em objeto. Permitir a queda mantém a obra em estado de abertura, onde a entropia participa como agente.

1933 essay by Japanese novelist
Jun’ichirō Tanizaki
A referência a In Praise of Shadows, de Jun’ichirō Tanizaki, introduz uma dimensão estética que privilegia a penumbra, a opacidade e o acúmulo temporal. A beleza não reside na clareza, mas na densidade de relações que se tornam perceptíveis apenas em condições de baixa visibilidade.
Este epistolário deve ser compreendido como arquivo vivo. Sua legibilidade não é imediata, e talvez nunca seja total. Tal como as correspondências entre Lygia Clark e Hélio Oiticica, sua potência reside na capacidade de ativar uma leitura diferida, onde o tempo atua como coautor.
A observação de que “ninguém lê” não constitui falha, mas condição. O arquivo não demanda público imediato. Ele se projeta como reserva de sentido, disponível para futuras atualizações interpretativas.



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