Arquivo Vivo

Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.

Horizonte de Eventos: Entre Mito, Matéria e Cosmos

Taj Mahal em Agra foi erguido por Shah Jahan em memória de Mumtaz Mahal, que morreu em 1631. Narrativas modernas especulam que o corpo de Mumtaz teria sido mantido intacto (“mumificado”) durante os doze anos de construção do mausoléu. Um livro polêmico de 2015 afirma que “a verdade real sobre o Taj Mahal foi suprimida” e sugere métodos especiais de preservação do corpo. De fato, pesquisas dizem que seu caixão teria contido ervas como camphor e henna em um baú selado, segundo técnicas tradicionais Unani.

No entanto, historiadores costumam desmentir esse mito. Reportagem do Hindustan Times (2007) relata que especialistas afirmam categoricamente que “seu corpo não foi mumificado”. Não há descrição confiável de qualquer procedimento de preservação; ao contrário, crê-se que o corpo passou por decomposição normal e só “talvez sobraram ossos” na transferência final para o Taj. Como resume um historiador: “ninguém abriu o caixão… pode-se apenas imaginar o que aconteceu ao corpo de Mumtaz”. Assim, a ideia de Mumtaz como múmia permanece um mito popular, reforçado pelo misticismo em torno do Taj, mas sem comprovação documental.

O horizonte de eventos na astrofísica

Em astrofísica, o horizonte de eventos é o limite onde nem mesmo a luz escapa da gravidade extrema de um buraco negro. Conforme explica a NASA, trata-se de um “limite crítico ao redor do buraco negro onde a velocidade de escape excede a da luz”. Dentro dessa fronteira, qualquer objeto — ou fóton — fica preso indefinidamente. O buraco negro em si é invisível, mas sua presença é inferida pelo efeito sobre a luz ao redor. Astrônomos capturam a sombra do horizonte de eventos observando o anel brilhante de matéria em rotação: a matéria no disco de acreção ilumina-se fortemente antes de cair, criando um anel fotônico que envolve a região escura central.

 Ilustração da NASA: o disco de acreção de um buraco negro visto quase de lado. A intensa gravidade curva a luz, criando o anel distorcido em volta do horizonte de eventos.

Segundo o SciTech Daily, o horizonte de eventos cria um “sombra” visível em imagens de buracos negros. A distorção do espaço-tempo faz com que a luz do disco seja redirecionada, produzindo um círculo escuro maior que o próprio buraco negro. Na primeira imagem real de um buraco negro (galáxia M87), o EHT observou justamente esse anel luminoso em torno do vazio central. Esses modelos científicos ressaltam como a luz ao redor do horizonte se organiza em formas circulares e radiosas, análogas ao “olho” descrito na obra: um núcleo escuro refletido por brilhos coloridos.

Esquema de buraco negro (NASA): o “olho” escuro do horizonte de eventos é rodeado por um ou múltiplos anéis luminosos formados por luz em órbita


Características principais do horizonte de eventos:

  • A fronteira sem retorno do buraco negro, onde qualquer objeto é puxado para dentro (nem a luz pode escapar).
  • “anél do horizonte”, ou sombra, que aparece como uma região escura (aproximadamente o dobro do tamanho real do buraco negro) envolvida por luz gravimetricamente defletida.
  • Fenômenos associados (não visuais) como jatos polares e coroa energética, que compõem o ambiente extremo ao redor.

Precedentes artísticos e materiais

A integração de materiais “pobres” e gestos corpóreos remete a vários artistas e movimentos pós-guerra:

  • Lucio Fontana (Italia): célebre por cortar e perfurar telas nas décadas de 1940–60. Com sua série Concetto Spaziale, Fontana transformou a pintura em espaço ao rasgar o plano bidimensional, “radicalmente expandindo a pintura em uma terceira dimensão”. Ele produziu “um novo conceito de espaço” ao criar aberturas físicas na superfície da tela. No projeto, o metal incrustado que deforma a juta lembra esses cortes – ambos rompendo a planaridade e revelando profundidade.
  • Alberto Burri (Italia): pioneiro no uso de juta e costuras (anos 1950). Sua série Sacchi consiste em pinturas feitas com sacos de juta costurados e manipulados, evocando cicatrizes e “costuras de pele”. Burri cortava, costurava e queimava as fibras da juta, criando relevos e texturas cruas. Como descreve a historiadora, suas costuras e remendos “não são repetição do trauma, mas meio expressivo para alcançar um novo realismo material”. Seu trabalho materializa o impacto da guerra em tecidos e corpos. Na obra atual, o uso de juta e gesso remete diretamente a esse legado, ativando superfícies orgânicas que parecem cicatrizar ou fossilizar.
  • Anselm Kiefer (Alemanha): conhecido por suas telas monumentais com materiais terrosos e metálicos. Kiefer frequentemente incorpora terra, chumbo, cinzas, palha e vidro quebrado em camadas de tinta espessa. Essas camadas criam “paisagens que resistiram ao tempo e ao trauma”, como “arquivos de memória” físico. Em uma descrição típica, seus quadros imponentes aparecem carregados de terra e chumbo, mesclando passado e presente. Esse olhar arqueológico sobre a matéria dialoga com nosso uso de terra, cinzas ou pigmentos casuais que servem de “sedimento” do processo — marcas diretas do acontecimento.
  • Max Ernst e o frottage (França/Alemanha): o termo frottage (“esfregar” em francês) foi cunhado por Max Ernst na década de 1920. É a técnica de colocar papel sobre uma superfície texturizada e esfregá-lo com lápis ou giz, revelando padrões ocultos. Ernst reinventou esse método, deixando que texturas acidentais guiassem a imagem subconsciente. No trabalho atual, o papel higiênico pousado nas “poças” de tinta se comporta de modo análogo: ao ser colocado e removido, ele captura impressões e relevos sutis, revelando “formas enigmáticas” escondidas no suporte. Essa frottage íntima torna-se um registro material do gesto, como registrar a topografia líquida da pintura.
  • Doutros diálogos conceituais: A menção a HAL 9000 (do filme 2001: Uma Odisseia) também é evocada: seu “olho” vermelho metálico remete ao uso do metal côncavo como esfera reflexiva. Analogamente, obras de arte que usam superfícies especulares — por exemplo, espelhos côncavos em instalações contemporâneas — envolvem o espectador no espaço, fazendo-o parte da obra. Embora não haja fonte direta, a ideia de um “olho que tudo vê” insinua conexões entre tecnologia, vigilância e consciência — temas caros à reflexão cosmológica desta pintura.

Conexões curatorias e reflexões

“Horizonte de Eventos” reúne essas camadas de significado. Através da superposição de materiais (juta, papel, tinta, metais, luz), a obra funciona como um relicário temporal: cada elemento carrega um momento de tensão entre preservação e passagem. As fibras de juta e as marcas de gesso lembram um arquivo arqueológico que atravessa eras, enquanto o metal polido no centro age como um “olho” meditativo. À semelhança do cenário da Chthulucena de Haraway, corpo e cosmos se entrelaçam — por um lado, o gesto palpável do artista cruza a superfície; por outro, a ciência sugere um limiar invisível (o horizonte) que separa o visível do inalcançável.

O processo aqui é uma arquivologia performativa: a pintura absorve luz colorida de um concerto projetado, envolve o gesto com o papel e depois “selamos” o instante pelo espelho metálico iluminado. Cada marca – uma ranhura de tinta, uma impressão suave de papel – equivale a um sedimento temporal. A referência ao Taj Mahal e à mumificação ajuda a pensar em como preservamos (ou deixamos ir) aquilo que amamos. De maneira análoga, o horizonte de eventos nos leva a refletir sobre o que permanece após atravessarmos uma fronteira (seja ela física ou conceitual).

Em suma, a obra cria um campo de colisão entre mito e ciência. Ela torna tangível a ideia de arquivar o instante: as camadas pictóricas e o olho metálico transformam o efêmero em permanente, o gestual em estrutura. Ao convidar o espectador a olhar repetidamente, pedalando pela casa ou retornando ao ateliê, o trabalho mantém acesa a “combustão silenciosa” das ideias — um fronte de guerra na matéria e uma paz no espaço das ideias. Com isso, “Horizonte de Eventos” não só documenta um processo, mas também questiona o nosso lugar entre o que pode ser tocado e o que só nos resta imaginar nos confins do universo.

Fontes:

[1]  Is Mumtaz Mahal’s body mummified in Taj Mahal?

https://www.business-standard.com/article/news-ians/is-mumtaz-mahal-s-body-mummified-in-taj-mahal-115012800519_1.html

[2] Is Mumtaz Mahal’s body mummified in Taj Mahal? – India Today

https://www.indiatoday.in/india/story/taj-mahal-mumtaz-mahal-muffified-body-237714-2015-01-28

[3] Is Mumtaz Mahal’s body preserved in Taj Mahal? – Times of India

https://timesofindia.indiatimes.com/is-mumtaz-mahals-body-preserved-in-taj-mahal/articleshow/2083338.cms

[4] [5] Was Mumtaz really buried at Taj Mahal?| India News

https://www.hindustantimes.com/india/was-mumtaz-really-buried-at-taj-mahal/story-41iAzmWVUOUPTSK2XsFgXP.html

[6] [7] [8] Astronomy & Astrophysics 101: Anatomy of a Black Hole

https://scitechdaily.com/astronomy-astrophysics-101-anatomy-of-a-black-hole

[9] How Lucio Fontana’s Slashed Canvases Changed Art History | Art & Object

https://www.artandobject.com/news/how-lucio-fontanas-slashed-canvases-changed-art-history

[10] [13] Alberto Burri | Sacco (Sack) – Lévy Gorvy

[11] Anselm Kiefer: Confronting History with Ash, Lead, and Memory | by La Vela Antonino | New European Painting | Medium

https://medium.com/new-european-painting/anselm-kiefer-confronting-history-with-ash-lead-and-memory-64145443d366

[12] Max Ernst, Frottage & Grattage: Unlocking the Subconscious Through Texture

https://www.zenmuseum.com/en/finder/page/frottage-and-grattage-techniques-of-max-ernst

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