O Retorno ao Abstract Ground
Há momentos em que o ateliê deixa de ser apenas um espaço de produção para se tornar um campo de forças acausais. Carl G. Jung chamaria isso de sincronicidade: quando o mundo físico espelha misteriosamente um processo interno, unindo matéria e psique através de um significado profundo que escapa à lógica de causa e efeito.

Neste exato período, estou debruçado sobre uma pintura da série original Abstract Ground que repousa ao fundo do meu estúdio. Ela está sendo submetida a um processo que chamo de “mumificação pictórica” e inserida em um “horizonte de eventos”. É um re-trabalho lento, uma sobreposição de tempos onde a matéria antiga é reabsorvida, silenciada e transmutada.
Em meio a esse transe de repintura, emerge das minhas caixas e mapoteca um cartão-postal de 2014, da minha exposição final de mestrado no Royal College of Art, estampado justamente com um detalhe de Abstract Ground XIII. Esse cartão estava em uma espécie de estado de latência, ocupando um lugar no espaço, e emergindo em determinado momento. A experiência de des-coordenação motora no ateliê e o pensamento crítico ressonando na frequência que permite percebê-lo.


Encontrar esse objeto agora seria visto como acaso, resultado da desorganização do arquivo; para a prática artística, é a prova de que a mapoteca é um espaço de colisão de idéias. Tomou a forma da minha própria percepção da geometria do passado batendo à porta do presente.
Essa sincronicidade reafirma a essência da série Abstract Ground. Mapeia sensorialmente a geometria do chão como infográfico de controle. Assim como o calçadão que estrutura o mercado 24/7 ininterrupto da praça Jemma Al Fna em Marrakech, a padronagem reflete uma macro-infraestrutura maior, que usurpa o tempo do descanso, do prazer e da contemplação. .A série sempre foi uma crítica visual aos mercados globais das bolsas de valores que nunca fecham, pois enquanto uma abre aqui, outra começa ali, em outro ponto do globo. O mesmo acontece com os mercados de arte, que seguem um fluxo ostensivo e predatório.
Ao submeter essa pintura antiga ao processo de mumificação, estou, na verdade, oferecendo uma resistência a esse fluxo contínuo. É uma resposta ao paradoxo da hiperprodução da arte contemporânea : em vez de produzir mais do que o mundo é capaz de digerir, eu dobro o tempo sobre a própria obra.
A arte habita essa fronteira. É um fluxo muito maior do que a gravidade ou a autoria. Às vezes, a linguagem ultrapassa nossa própria compreensão, e nos resta estar atentos aos sinais acompanhando o nosso trabalho.

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