Agata era uma projeção do meu inconsciente. Residente em “Naked”, a região mais sensual do Second Life (regions ou sims*), sua casa era um “abrigo achado”, sem parede, sem janelas, em uma restinga, abertas para o mundo. Apenas a plataforma suspensa por onde pufes, colchões, tapetes e poltronas se espalhavam e o teto, delimitava, esse espaço íntimo de acolhimento e também de muitas vivências coletivas. encontros, pista de pouso (Landing) e música, a rádio Paradise. Lá, eu era ela – em sua plenitude, e visitava muitos outros sims, criados como incríveis cenários de uma realidade que foi a primeira e não a segunda de muita gente.
*No Second Life, Regiões (Regions), Sims (abreviação de Simulators) e Áreas de Simulação referem-se ao conceito fundamental de unidades geográficas e técnicas que compõem o mundo virtual.



Casada por três meses com Red Ryder, um avatar que conheci em um bar de strippers e do qual fui descobrir sua real identidade, algum tempo depois quando revelei que no mundo real, eu não era ela. Apenas isso. E ele me amou como nunca amou ninguém, disse ele mesmo. Era 2020, pandemia, lockdown com fone de ouvido e corpo físico ausente, porém sentidos a flor da pele, me sentindo a mulher mais feliz do planeta.
Me veio agora na mente, essa música da Rita Lee, “Pega Rapaz”:
Pega rapaz
Meu cabelo à lá garçom
Prova o gosto desse ton sur ton
Do meu batom na tua boca
Alô doçura
Me puxa pela cintura
Tem tudo a ver o meu pinguim
Com a tua geladeira
Nós dois afim
de cruzar a fronteira
Numa cama voadora, fazedora de amor
De frente, de trás
Eu te amo cada vez mais
De frente, de trás
Pega rapaz, me pega rapaz
De frente, de trás
Eu te amo cada vez mais, mais, mais
Paga rapaz, me pega rapaz
Pega rapaz
Meu cabelo à la garçom
Prova o gosto desse ton sur ton
Do meu batom na tua boca
Alô doçura
Me puxa pela cintura
Tem tudo a ver o teu xaxim
Com a minha trepadeira
Nós dois pra lá
Bem pra lá de Nirvana
Numa cama voadora, fazedora de amor
De frente, de trás
Eu te amo cada vez mais
De frente, de trás
Pega rapaz, me pega rapaz
De frente, de trás
Eu te amo cada vez mais, mais, mais
Pega rapaz, me pega rapaz
De frente, de trás
Cada vez mais, mais
Pega Rapaz – Rita Lee – LETRAS.MUS.BR
Logo no início de “Pega Rapaz”, Rita Lee desafia padrões tradicionais de feminilidade ao mencionar “meu cabelo à la garçonne”, referência ao corte curto que simboliza independência e ousadia feminina. Essa escolha reforça a imagem de uma mulher segura, que assume seus desejos sem medo de julgamentos, especialmente relevante no contexto dos anos 1980, quando discussões sobre liberdade feminina ganhavam força. O verso “prova o gosto desse ton sur ton do meu batom na tua boca” intensifica o tom sensual da música, sugerindo intimidade e prazer compartilhado, além de brincar com a ideia de mistura de identidades.A letra traz metáforas bem-humoradas e duplos sentidos, como “tem tudo a ver o meu pinguim com a tua geladeira” e “o teu xaxim com a minha trepadeira”. Essas imagens usam elementos do cotidiano para sugerir a química sexual do casal de forma leve e divertida. O refrão “de frente, de trás, eu te amo cada vez mais” explicita o desejo e a liberdade sexual, sem tabus, reforçando o espírito de libertação presente na obra de Rita Lee. Ao propor “cruzar a fronteira numa cama voadora, fazedora de amor”, a música sugere uma fuga das limitações sociais e morais, celebrando o prazer e a cumplicidade do casal de maneira inovadora para a época.
Gaveta 01: O despertar pixelado e o upgrade da carne virtual
A gaveta número 1 me leva de volta à época em que comecei a estudar Comunicação e Multimeios na PUC-SP, por volta de 2004 ou 2005. O Second Life estava em alta e eu explorava realidade virtual, interfaces cibernéticas e programação em HTML. Lembro que o YouTube ainda não existia; quando consegui criar uma página que reproduzia vídeo, mostrei para a minha mãe como se fosse algo extraordinário. Afinal, naquela época, assistir a um vídeo na tela do computador era algo inédito.
Foi nesse período que a Agata apareceu. A ideia de metaverso e mundos de realidade expandida ainda engatinhava, com experiências pontuais rolando no ZKM, na Alemanha. Como o meu foco era a comunicação multimeios, o Second Life funcionava para mim como uma plataforma pedagógica, um lugar de aprendizado — eu até frequentava aulas de Harvard lá dentro. Por isso, a primeira versão da Agata era quase conservadora. Até tive meus casos no começo, mas era tudo muito feio, quadrado e pixelado.
Anos depois, a pandemia chegou. Passado o susto inicial de “fim de mundo” e com as coisas se acalmando — quando decidi parar de assistir aos noticiários o dia inteiro atrás de curas, vacinas ou tragédias —, pensei: vou entrar no Second Life para ver como está hoje (2020). O metaverso havia se consolidado. Tudo estava muito mais realista, incrível e imersivo. A verossimilhança das imagens ajudou muito a trazer aquela sensação palpável de estar ali. Antes, você mexia em blocos de pixels para perceber que havia uma pessoa do outro lado, mas era só um bonequinho, nada muito atraente. Agora, era real.
Esse meu retorno e o subsequente upgrade da Agata começaram com uma intervenção inusitada. Uma residente se aproximou de mim e foi direta: disse que eu estava em uma praia, mas que, daquele jeito, ninguém iria me querer. Ela me avisou que eu não estava adequada à realidade atual da plataforma; eu estava “pixelada” e precisava melhorar.
Então, pedi ajuda. Ela me levou a algumas lojas virtuais para conseguir uma aparência melhor: uma nova malha de cabeça, pele realista, roupas… A ironia é que eu não cheguei a usar quase nenhuma dessas roupas. A Agata passou a viver em áreas de nudismo. Morava em uma restinga sem paredes, em uma praia naturista. No fim das contas, a minha versão mais realista e desejada só tinha, no máximo, uns três vestidos no armário.
