Arquivo Vivo

Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.

O fenômeno código da realidade DMT–laser

Segundo vídeos e posts virais, um entusiasta chamado Danny Goler (“DanGo_Laser”) afirma que, ao inalar DMT enquanto aponta um laser difratado de 650 nm para uma parede, aparecem nos olhos padrões repetitivos que lembram um “código” oculto na realidade[1][2]. Goler diz ter replicado o feito centenas de vezes e que “163 outras pessoas confirmaram” a descoberta[1]. Ele divulgou vídeos no YouTube, TikTok e Reddit descrevendo símbolos parecidos com caracteres katakana japoneses – como a “chuva verde” do filme Matrix[2][1]. A história ganhou manchetes (por exemplo, uma matéria de Vice em 2025) e atraiu curiosos dispostos a reproduzir o experimento.

  • Danny Goler (um psiconauta) afirma ter enxergado “o código” ao olhar o reflexo difratado do laser sob DMT[2].
  • Goler publicou um estudo piloto (IPI Letters 2025) detalhando o “protocolo do código da realidade”[3].
  • O relato viral lembra cenas como o código japonês de Matrix (que, aliás, também usou katakana)[2][4].

Evidências científicas sobre visões DMT

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Em geral, a literatura sobre DMT descreve visões geométricas intensas. Estudos controlados de DMT mostram que usuários frequentemente relatam fractais, formas geométricas e cores muito vivas[5]. Por exemplo, Frigerio et al. (2022) encontraram que os temas visuais mais comuns em viagens de DMT são mandalas, fractais e “padrões geométricos não representacionais”[5]. Isso reflete a ideia de que experiências psicodélicas tendem a extrair imagens da própria arquitetura neural e retiniana: padrões de grade, hélices e filamentos já são comuns em arte rupestre e fenômenos entópticos[6]. Em outras palavras, cérebros sob DMT costumam “ver” fractais e geometria sagrada por hábito neurobiológico.

  • Estudo de Goler et al. (2025) – Publicação em acesso aberto descreveu um protocolo com laser de 650 nm e DMT vaporizado; participantes relataram símbolos e estruturas coerentes, tipo código[3]. É um piloto sem verificação externa, mas sugere um fenômeno visual repetível na amostra.
  • Literatura em psicodelia – Muitos trabalhos de base (Strassman, Gouzoulis-Mayfrank, Frigerio etc.) mostram “padrões geométricos complexos” universais sob DMT[5]. Visões caleidoscópicas e mandalas ocorrem em boa parte dos usuários, especialmente em doses altas[5].
  • Teoria neurofisiológica – Modelos de Bressloff e colegas explicam essas visões como padrões em placas de grade neuronal do córtex visual[6]. Ou seja, o cérebro tem “mapas de fractais” embutidos, ativados por DMT.

Por exemplo, imagens psicodélicas típicas evocam fractais coloridos e espirais orgânicas – como a do marbling acima – muito semelhantes às descrições encontradas em estudos científicos[5]. Essa “linha orgânica” das visões lembra as ideias de Lygia Clark sobre contornos vivo–inorgânico entre corpo e mundo: as fronteiras do observado são traçadas diretamente pela nossa neurofisiologia. Assim, o “código” relatado pode ser apenas mais um padrão fractal comum, reforçado pela expectação do experimentador e pela química do DMT.

Experimentos amadores e relatos

Apesar do frisson na internet, muitos usuários tentaram sem sucesso. No documentário citado pela Vice, o neurocientista Zeus Tipado chamou o experimento de “ilusão de ótica” e disse já ter tentado quatro vezes em diferentes ângulos sob DMT – sem ver nada[7]. Outros estudos de caso anônimos relatados em fóruns concordam que o suposto “código” não aparece para todos; pelo contrário, algumas pessoas reportaram alucinações totalmente distintas ou até traumáticas ao testar o laser. Um usuário no fórum DMT Nexus descreveu visão de “programadores demoníacos” e “código secreto” com mensagens violentas, levando-o a sofrer um surto e quebrar paredes com uma marreta[8]. Segundo relatos, até um podcaster entrou em crise de niilismo após a experiência[9][7].

  • Vídeos do próprio Goler receberam centenas de comentários: alguns entusiastas confirmam experiências semelhantes (Goler diz ter 163 confirmações)[1].
  • Teste independente: o neurobiologista Tipado concluiu que definir realidades baseado em filmes (como Matrix) era “BS” – e nada viu em quatro tentativas[7].
  • Fóruns DMT: um moderador relata relatos de “códigos secretos” e entidades demoníacas ligados ao laser, incluindo pessoas passando mal e sendo detidas pela polícia[8][10].
  • Muitas pessoas tentaram ver o código e, em vez disso, não enxergaram nada especial[7][11]. Isso sugere que o efeito pode depender muito da expectativa e do estado individual.
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Explicações científicas plausíveis

A explicação mais aceita entre especialistas é que o “código” é criado pela própria fisiologia do observador, não por uma mensagem externa. O neurobiologista Andrew Gallimore argumenta que o laser induz um speckle (padrão de pontos de luz e sombra na retina), o qual é interpretado pelo cérebro sob DMT como formas familiares[12]. Em outras palavras, a combinação do estímulo luminoso repetitivo e do estado alucinatório gera imagens estáveis. Além disso, padrões entópticos naturais (grade retiniana, células em favo, curvas aninhadas) já formam a base dos fractais experimentados com psicodélicos[6].

Críticos também destacam semelhanças com arte conhecida: o “código” de Goler lembra a escrita katakana somente de leve – talvez por efeito de pareidolia (vemos o que nossa cultura conhece, como no próprio Matrix). Conforme um analista observou, é “óbvio demais” que uma estrutura de código real seria invisível – o que vemos é a saída do mundo real, não o código por trás dele[13]. As visões DMT tendem a ser tão convincentes que podem se organizar como objetos tridimensionais estáveis; mas essa “objetividade” não garante existência extramental[14].

  • Speckle e retina – Padrões de laser espalhado criam mosaicos visuais que o cérebro reformata sob drogas[12].
  • Memória e cultura – Quando estamos sob efeito, podemos projetar símbolos familiares (por ex., traços japoneses) sobre formas abstratas. O parecido com o código do filme Matrix é curioso, mas provavelmente coincidência cultural[2][4].
  • Alucinações “reais” – Pesquisas mostram que alucinações vivas podem ter “ontologia” estável; corpos inteiros aparecem e seguem leis físicas nos seus mundos internos[14]. Assim, mesmo uma visão totalmente inventada pode parecer “lá fora” e obedecer lógica própria. Não há nada inerentemente paradoxal em um DMT trip trazer visões tão sólidas.

Até o momento, falta evidência sólida de que exista um “código externo” revelado pelo DMT+laser. O único trabalho formal é um relato piloto não revisado por pares independentes[3]. Vários especialistas advertem que o experimento carece de rigor: testadores neutros não repetiram o feito, e explicações neurocientíficas internas (speckle retiniano e neuroarritemias) parecem resolver o caso. Em linguagem direta: a ciência sugere que o que foi visto é mais um truque das redes neurais do que uma mensagem cósmica.

  • Limitações: Não há confirmação independente nem demonstração objetiva por câmeras. Tudo se baseia em relatos visuais, que podem ser influenciados por expectativas e artefatos cerebrais[7][14].
  • Explicação mais provável: Trata-se de uma experiência subjetiva e dependente do observador. Os padrões vistos podem refletir a “membrana” entre estado alterado e estímulo luminoso, ecoando estruturas internas[12][14].
  • Cautela: Mesmo Goler e colaboradores alertam que DMT não é brincadeira; recomendam somente experientes tentarem o protocolo[15]. A matemática de Haraway sobre NatureCultures lembraria que não separarmos mente e material facilitaria entender: nossa visão não escaneia uma realidade preexistente, mas cria cenários em cada jornada.

Em síntese, não há “transição cósmica” comprovada por trás desses símbolos; o “código” emergiria do próprio espírito e do corpo que observam. Como disse um crítico, definir realidade a partir de filmes já sugere besteira[7]. Em vez de um portal literal, talvez o experimento seja uma passagem poética para compreender os limites da percepção. Como propõe Haraway, não procuramos uma entidade distante, mas sim as telas multilayer da relação entre organismos e ambiente. O debate segue aberto: é um capítulo fascinante na interseção de arte, ciência e consciência – mas por enquanto, sem comprovações científicas definitivas[12][14].

Fontes: Relatos de usuários e mídias sociais sobre o tema[1]; literatura científica sobre DMT[5]; reportagem da Vice (análise crítica de especialistas)[7][12]; fórum DMT-Nexus (experiência anedótica)[8]; artigo do “Protocolo Código da Realidade”[3]; análise cética em blog especializado[14]. Cada evidência e interpretação deve ser entendida em seu contexto – por ora, o “código” segue como mistério a ser investigado, não um fato estabelecido.


[1] Experimento com DMT e Laser Revela Código Visível – Para Onde Vamos a Partir Daqui? : r/SimulationTheory

[2] [7] [9] [10] [11] [12] [15] The Man Who Can ‘Prove’ Life Is a Simulation—With Just a DMT Vape and a Laser

[3] (PDF) Detailing a Pilot Study: The “Code of Reality” Protocol, A Phenomenon of N,N-DMT Induced States of Consciousness

https://www.researchgate.net/publication/387824795_Detailing_a_Pilot_Study_The_Code_of_Reality_Protocol_A_Phenomenon_of_NN-DMT_Induced_States_of_Consciousness

[4] [13] [14] On the DMT laser “Code of Reality” Effect

https://alieninsect.substack.com/p/on-the-dmt-laser-code-of-reality

[5] [6]  Phenomenology and content of the inhaled N, N-dimethyltryptamine (N, N-DMT) experience – PMC

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9130218

[8] What caused your hyperslap? | DMT-Nexus forum

https://forum.dmt-nexus.me/threads/what-caused-your-hyperslap.367347

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