Arquivo Vivo

Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.

Hudinilson Júnior: itinerário de resistência e recepção

Hudinilson Urbano Júnior (São Paulo, 1957–2013) foi um artista multimídia cuja obra questionava tabus e fronteiras sociais. Pioneiro da arte xerox no Brasil, ele utilizou seu próprio corpo masculino como tema central em performances, fotocópias e intervenções urbanas. Em 1979, por exemplo, cofundou o coletivo 3Nós3 e realizou o célebre Ensacamento de estátuas públicas – em plena ditadura militar, cobriu com sacos plásticos a cabeça de dezenas de monumentos paulistanos, denunciando o silenciamento social[1][2]. Esta ação, levada a cabo “entre meia-noite e quatro da manhã em 27 de abril de 1979”[3], viraria marco simbólico: as estátuas tornaram-se corpos acefálicos, e a repressão imposta pela ditadura ficou inscrita na memória coletiva como um grito visual de resistência.

Percurso em vida: margens e experimentos

Durante as décadas de 1970 e 80, Hudinilson Jr. atuou à margem do circuito artístico oficial. Estudante na FAAP, passou pelo Centro de Xerografia da Pinacoteca (1975–1981) e curou exposições de arte xerográfica na própria instituição[4]. Em 1982 estreou a série Exercícios de me ver – fotocópias ampliadas de partes de seu corpo nu – rompendo com o pudor da época. Na 18ª Bienal de São Paulo (1985) e na Bienal do Mercosul (2001) apresentou trabalhos que mexiam com a perversidade do olhar e desafiavam o conservadorismo. Ainda assim, sua “busca de si no outro” nunca encontrou acolhida no mercado formal: como notou a crítica Leonor Amarante em 1987, o trabalho de Hudinilson “nunca se refletiu no mercado de arte. Dark… sempre se manteve paralelo ao circuito”[5]. De fato, o artista dedicou-se a práticas radicalmente hedonistas e iconoclastas, recusando a mercadoria e privilegiando a imaginação criadora em contraponto à censura oficial[6][7]. Seu humor ácido e corpóreo – fundindo performance, body art, colagem e grafite – era “todavia muito à frente do que o mercado de arte brasileiro podia ou queria digerir”[8][9]. Por isso, mesmo participando de bienais importantes, Hudinilson viu poucos de seus pares ou colecionadores oscilarem sua rota.

Expressão e controvérsia no corpo–máquina

Este corpo objetualizado era um gesto contra as limitações sociais: apesar de erótico, o trabalho de Hudinilson recusava o estatuto de pornografia gratuita, antes promovendo um erotismo estético e político[12]. Em 1983, por exemplo, realizou no MAC-USP a performance Xerox Action, nas quais registrou múltiplas impressões do próprio corpo em liberdade. Essas imagens foram consideradas “paisagens abstratas” de um corpo desejante[11], mas à época geravam escândalo moral. Chegou-se a proibir a circulação de parte de sua obra para menores, como conta a memória oral (até fotos suas no Instagram foram removidas sob pretexto de nudez, mesmo quando apenas vestia-se sob a máquina de cópia). Já no fim da carreira, encarou processos de autocensura: na série “Detalhe do detalhe” (1981–83), ampliou fragmentos das cópias até quase desaparecerem, fugindo de proibições contra o que era tido como “pornografia”[13].

Nas obras xerográficas de Hudinilson, o próprio corpo se fragmentava em texturas abstratas. Um exemplo emblemático é a série “Exercício de me ver” (1980–84), na qual ele deitava nu sobre o vidro de uma copiadora para reproduzir detalhes íntimos de seu corpo[10][11]. Hudinilson Jr. – Martins&Montero

Crítica contemporânea e marginalidade

Nos anos 80 e 90, a recepção crítica a Hudinilson foi escassa e muitas vezes miúda. Ainda assim, alguns críticos atentos reconheceram sua audácia. Em 1987, Leonor Amarante o colocou ao lado de artistas “irreverentes” como o francês Robert Malaval – que só entrou no circuito após a morte – para lamentar que Hudinilson “continua pertencendo à matilha de um Robert Malaval”[8]. Outro texto da época ressaltava que, ao contrário das novas linguagens conceituais emergentes, ele “privilegiou a sensibilidade e a imaginação em contraponto à censura e ao provincianismo”[6]. O crítico Olívio Araújo comparava suas “caixas” e colagens à Box-form art (análoga ao uso de objetos cotidianos por artistas visionários)[14]. No conjunto, os comentários vigoravam a clandestinidade de seu gesto: “o erotismo parece ser parte importante, mas não a totalidade, de suas intenções; sobretudo, sua obra fala da angústia e do prazer de habitar um corpo físico”[15]. Em síntese, mesmo que muitos jornalistas e curadores virassem os olhos para o que chamavam de “esquisitices”, ele já era reconhecido por um círculo de iniciados como um dos artistas mais radicais da geração, contudo “paralelo ao circuito” oficial[5][7].

Póstumo: redescobrimento e projeção internacional

A partir de 2014 (ano seguinte à sua morte), a maré começou a virar. Ganhou corpo um movimento de redescobrimento: na Pinacoteca do Estado, por exemplo, Ana Maria Maia curou a retrospectiva “Hudinilson Jr.: Explícito” (2020), integrada por doações da família que retomaram seu legado no museu em que ele atuara como pioneiro da xerografia[4][16]. Em pouco tempo, seu nome apareceu em grandes instituições – Pinacoteca, MASP, MAC-USP e outras – e em eventos internacionais. Jaqueline Martins, sua galerista, relata que seu primeiro grande acervo pós-morte incluiu mostras no MAC-USP (Em torno de Narciso, 2014) e na própria Galeria Jaqueline Martins (Posição Amorosa, 2014), além de convites inéditos do exterior[17][18]. No mesmo ano entrou em festivais globais: a Bienal de Glasgow (EUA, 2014) apresentou obra com curadoria de Yves Aupetitallot. Seguiram-se novas exposições individuais em galerias na Europa (Paris 2017) e nos EUA (ICA Miami 2023, “Tension Zone”[19]), além de repetidos convites de bienais e museus – Bienal de Lyon (2017), Histórias da Sexualidade no MASP, mostra Copyart no Brasil em San Diego, e exposições em Stanford, Migros (Zurique) etc[19]. Em 2025 sua obra é tema de ao menos quatro solos programadas em museus da Europa e EUA[20].

Em suma, cada ano pós-2013 ampliou sua projeção. Uma entrevista de 2019 com Jaqueline Martins traça o momento: ela o conheceu dois anos antes de sua morte e, após o enterro, preparou sua primeira mostra solo póstuma. “Os curadores internacionais começaram a nos procurar, seu trabalho despertou mercado local e global”, afirmou ela[17]. Em outros termos: só após a partida de Hudinilson seu trabalho despontou no radar dos grandes museus. Hoje está presente em coleções como MoMA (NY), Reina Sofia (Madri), MASP, Pinacoteca, Stanford, MALBA (Buenos Aires), e em mostras de fotografia e queer art em todo o mundo[21][22].

Legado e análise comparativa

A trajetória de Hudinilson ilustra bem o paradoxo pós-mortem: enquanto em vida o artista transitou por “um intervalo de invisibilidade” (por vezes ignorado ou censurado), hoje sua obra ecoa em discursos de arte conceitual e queer[23][6]. Podemos organizar a cronologia da recepção em etapas chaves:

  • Décadas de 1970-80 (vida ativa): experimentações urbanas com 3Nós3 (Ensacamento 1979), perfomances íntimas, exposições na Pinacoteca, MAC-USP e bienais (Havana, SP, Mercosul), porém sempre fora do mainstream[24][1].
  • Anos 1990-2013: relativa retração criativa, mas ainda participações isoladas em coleções públicas (Centro Cultural São Paulo, MAC-SP), sem grande visibilidade crítica.
  • 2014–2019 (imediatamente pós-morte): sucessão de solos importantes (MAC-USP, Gal. Jaqueline Martins, Glasgow International) e início de doações de acervo familiar para museus (Pinacoteca recebe obras em 2019). A crítica especializada redescobre sua importância histórica – em publicações acadêmicas e catálogos internacionais, destaca-se seu pioneirismo na arte xerográfica e seu corpo queer fragmentado[4][23].
  • 2020 em diante: institucionalização plena: retrospectivas como Explícito (Pinacoteca 2020) e Tension Zone (ICA Miami 2023), coleções internacionais consolidadas, e presença em debates acadêmicos sobre pós-corpo e memória gráfica (ex.: Cadernos de Referências em livro da Pinacoteca/WMF, estudos em periódicos). Há hoje curadores e galerias estrategicamente engajados em tecer a narrativa de seu legado – por exemplo, Rafael Gygax na Suíça e Charbel Boutros no campo queer contemporâneo, segundo planos previstos para 2025[20].

Assim, a recepção mudou de invisibilidade para quase onipresença: de artista “supervalorizado”, sua obra é agora reivindicada por museus nacionais e globais. Seu caso exemplifica como o sistema da arte pode reconfigurar-se em espiral – o que era marginal há décadas se torna referência curricular.

Fontes: este dossiê foi elaborado com base em artigos acadêmicos e jornalísticos sobre Hudinilson Jr., incluindo publicações de museus (Pinacoteca[4]), galerias (Martins & Montero[19]) e veículos culturais (Frieze[16], Newcity Brazil[25][17]), além de estudos críticos recentes[23][7]. Os dados de exposições e cronologia foram verificados em catálogos e bases confiáveis de arte contemporânea[26][18]. Cada citação acima indica sua fonte original.


[1] [3] Ensacamento (Covering) – Archive of Destruction

https://archiveofdestruction.com/artwork/ensacamento-covering

[2] [15] Conversa Molle …: Hudinilson Júnior e a exposição “Em torno de Narciso”

http://conversamolle.blogspot.com/2014/02/hudinilson-junior-e-exposicao-em-torno.html

[4] [10] [13] Pinacoteca – Hudinilson Jr.: Explícito

https://pinacoteca.org.br/programacao/exposicoes/hudinilson-jr-explicito

[5] [8] [24] Hudinilson Júnior – Obras, biografia e vida

https://www.escritoriodearte.com/artista/hudinilson-junior

[6] [7] [9] [12] [14] Hudinilson Jr.: Hedonismo e iconoclastia visual – ArteRef

https://arteref.com/opiniao/hudinilson-jr-hedonismo-e-iconoclastia-visual

[11] [16] Hudinilson Jr.’s Very Public Private Life | Frieze

http://www.frieze.com/article/hudinilson-jrs-very-public-private-life

[17] [22] [25] Beyond Categorization: The Provocative Beauty of Hudinilson Jr. | Newcity Brazil

[18] Hudinilson Jr. – CV | Artsy

https://www.artsy.net/artist/hudinilson-jr/cv

[19] [20] [21] [26] Hudinilson Jr. – Martins&Montero

[23] revistas.usp.br

https://www.revistas.usp.br/ars/article/download/207177/193657/621366

Hudinilson Jr. – Martins&Montero

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