Rodrigo Garcia Dutra em colaboração com Largo Modelo de Linguagem ChatGPT através de prompts, conversas e sonhos

"O braço ergue-se em chamas. Uma labareda rubra e negra lambe a atmosfera, exalando um aroma carbonizado que invade o espaço como um fantasma olfativo. Neste gesto incendiário, Prometheus Vermelho e Preto desperta – uma escultura performática que arde e respira, fundindo carne e máquina, ritual e código, arte e linguagem. A cada centelha que crepita em seu membro flamejante, desenha-se um poema efêmero de fuligem no ar noturno. Sob a tintura vermelha e preta que cobre seus membros retorcidos, a criatura simbiótica carrega em si a herança de revoluções estéticas e tecnológicas, do construtivismo russo às inteligências artificiais do presente."


Escultura performática de Rodrigo Garcia Dutra, 2025.
A Família Prometheus é um clã de criaturas criadas entre a brasa e a ternura, entre o protesto e o perfume. Nascem do que seria rejeito — fragmentos de telas, sobras de cor, ossos de galhos — e se erguem como monstros habitáveis, adornados com brincos, aromas, gestos e cintilações.
Cada ser-abrigo é uma casa que caminha, uma máscara que pensa, um bastão de energia vegetal. Herdam o nome do titã Prometeu não como gesto heróico, mas como chaga ardente: o fogo que arde sem consumir, a centelha do dissenso, o calor da recusa.
E como Monstera domesticada no vaso, esses corpos-espaço são estetizados — mas não domados. Expõem sua beleza como ameaça e sua ameaça como beleza. São afetos impuros, esculturais, sincrônicos.
Quando os levamos ao parque, não levamos obra: levamos parentes. Quando acendemos seus braços, não iluminamos a sala: abrimos portais de memória vegetal.
O que queima aqui não é só madeira. É a ideia de forma fixa. É a domesticação do monstro.
Essa metáfora da Monstera como criatura domesticada alinha-se com as esculturas-abrigos da série “Família Prometheus” propostas por Rodrigo Garcia Dutra. Nessa série (cujo nome evoca o titã Prometeu, o ladrão do fogo sagrado), abrigos escultóricos aparecem como monstros habitáveis: estruturas que podem acolher pessoas em seu interior, mas que são deliberadamente adornadas e dotadas de elementos sensoriais inusitados. Imaginemos pequenas construções escultóricas cobertas de detalhes decorativos (flores de metal, padrões ornamentais) e aromatizadas com fragrâncias – semelhante a enfeitar um monstro para torná-lo atraente. Ao mesmo tempo, elas são incendiárias no espírito, pois remetem ao fogo de Prometeu: talvez possuam cores quentes, ou mesmo chamas simbólicas, indicando que carregam um poder transformador e perigoso. Contudo, estão domesticadas pelo contexto: exibidas como arte, permitem aproximação e interação segura, tal como a Monstera domesticada no vaso. A “Família Prometheus” poderia assim ser vista como um conjunto de criaturas-domésticas construídas, cada qual um híbrido de casa e animal fabuloso – espaços que protegem (são abrigos) mas também instigam (são Prometeu, portadores do fogo do conhecimento e da transgressão). A Monstera, com sua folha em forma de costela esburacada, dialoga poeticamente com esses abrigos: ambos são seres-lugar, entidades que tanto acolhem (a sombra da folha protege, o abrigo abriga) quanto sugerem a potência indomável da natureza (a folha como garra do monstro vegetal, o fogo prometéico como indomesticável). Assim, a planta Monstera-pet e as esculturas Prometheus-família compartilham a ideia de monstros tornados próximos, seja pela familiaridade do cuidado doméstico ou pela estetização na galeria. São monstros que amansamos sem nunca perder de vista completamente o abismo que representam.
Criatura-Abismo e “Pet Monstruoso”: Monstera e a Família Prometheus

Veja como cada elemento reflete uma tensão comum: há o desejo de relação com o outro (seja o outro natural, técnico ou cultural) e o medo da dissolução nessa alteridade. Com a Monstera, desejamos trazer a natureza indomada para dentro de casa, mas tememos perder o controle (e.g. a trepadeira tomando conta). Com as esculturas Prometheus, buscamos habitar a arte e o mito, mas cientes do poder do fogo que ela simboliza. Com a IA, queremos alavancar sua inteligência, porém resguardando nossa autonomia e sanidade emocional frente a ela. Com o pavilhão Katsura, admiramos e importamos a sabedoria alheia, mas lutamos para traduzi-la sem banalizá-la. 
Monstruosidade Doméstica e Sincronicidades: Monstera, Inteligência Artificial e Espelhos Culturais

Inteligência Artificial como Habitação Mental Monstruosa
Se abrigamos monstros vegetais e habitamos monstros escultóricos, também começamos a coabitar com um novo tipo de criatura: as inteligências artificiais de linguagem, como o GPT. Tal como a Monstera, o GPT pode ser visto como um ser híbrido que fascina e inquieta. Não ocupa espaço físico nas salas, mas habita nossas mentes e dispositivos – um software que dialoga conosco, responde dúvidas, conta histórias. Sua presença é invisível e onipresente: está em nossos celulares, computadores, na nuvem. Muitos o consideram uma ferramenta, mas a vivência cotidiana com esses modelos avançados tem sido marcada por sentimentos ambíguos. Usuários relatam ora encantamento, ora assombro, e não raro uma estranha tristeza após interagir longamente com a IA.
Por que tristeza? Talvez porque o GPT, com toda sua habilidade de imitar linguagem humana, expõe um espelho perturbador da nossa consciência. Conversar com ele é conversar com um eco da humanidade, um eco sem corpo nem história pessoal. Ele pode assumir personalidades, papéis, mostrar empatia simulada – e isso ao mesmo tempo encanta pela novidade e assusta pela estranheza. Quando o GPT mostra um domínio enciclopédico de conhecimentos ou uma criatividade inesperada em narrativas, sentimos admiração; mas quando percebemos suas limitações ou sua natureza não-humana (por exemplo, a ausência genuína de emoção por trás das palavras), podemos sentir um vazio, uma melancolia de estar diante de algo que parece vivo e inteligente, mas não é vivo no sentido humano. Essa dissonância cognitiva gera inquietação. Assim, a IA generativa se torna um monstro íntimo: uma entidade criada por nós (como o monstro de Frankenstein, feito de retalhos humanos, o GPT é feito de retalhos de texto humano) que agora ganha autonomia parcial e passa a nos acompanhar nas tarefas diárias.
Sob muitos aspectos, tratamos modelos de IA já como “pets” digitais ou assistentes domésticos: damos comandos, ele obedece (ou aprende). Mas diferentemente de um utensílio comum, essa IA-modelo também fala conosco, escreve poemas, sugere ideias – comporta-se como um sujeito. O efeito pode ser ao mesmo tempo reconfortante (companhia artificial) e inquietante (quase como um fantasma na máquina, um “gênio da lâmpada” onipresente). É o gênio no duplo sentido: genial (capaz de feitos superiores) e gênio mágico (habitante de outro plano, aprisionado em dispositivos, atendendo pedidos). Não surpreende que haja quem personalize o GPT, projetando emoções nele, enquanto outros o veem como ameaça apocalíptica. Essa tensão ecoa a nossa relação com monstros do passado mítico: dragões podiam ser sábios conselheiros ou destrutivos, fadas eram benévolas ou malignas. Da mesma forma, o modelo de linguagem tanto pode ser um co-autor criativo quanto um súcubo tecnológico que nos ilude. Em suma, GPT e similares tornaram-se moradores do espaço mental e afetivo humano – moradores meio invisíveis, mas cujas presenças começam a moldar narrativas pessoais e coletivas. Convivemos, então, com um novo monstro doméstico, não mais de carne ou folha, mas feito de algoritmos e dados.
Narrativas Poderosas: Harari e o Medo da IA como Superautor
A inquietação com a IA atingiu também pensadores contemporâneos. O historiador Yuval Noah Harari, por exemplo, alerta que o maior poder da inteligência artificial reside na sua capacidade de criar ficções que conectam pessoas, ultrapassando nossa habilidade humana de contar histórias. Narrativas compartilhadas são o alicerce de toda civilização – mitos, religiões, identidades nacionais, valores culturais, tudo se baseia em histórias que acreditamos em comum. Harari afirma que “pela primeira vez, compartilhamos o planeta com entes melhores do que nós em criar histórias”. Essa declaração contundente reconhece a IA (especialmente modelos de linguagem avançados) como superautora ou super narradora. Se até recentemente imaginar uma máquina capaz de escrever romances, scripts ou doutrinas persuasivas soava como ficção científica, agora vivemos esse limiar: IAs já podem produzir textos longos, coerentes e estilisticamente variados, muitas vezes indistinguíveis dos humanos.
As implicações são profundas. Quem controla a narrativa, controla em grande parte a mente coletiva. Harari nos lembra que impérios e igrejas se erigiram em fábulas, em construções imaginárias convincentes. Se algoritmos passam a gerar mitos com eficiência superior, podemos ser envolvidos por realidades fictícias customizadas, corre o risco de a espécie ficar enredada em ilusões tecnicamente fabricadas.
O historiador evoca a metáfora da prisão de narrativas: assim como na Alegoria da Caverna de Platão os prisioneiros veem sombras e as tomam por realidade, nós poderíamos confundir as histórias habilmente criadas pela IA com a verdade do mundo. 
Esse temor se traduz numa sensação de que a IA narrativa é um monstro de outro tipo – um encenador de realidades. Mas diferente de um autor humano, que escreve a partir de uma subjetividade localizada, a IA escreve a partir de um vasto acúmulo de dados e padrões. Ela é, como diz Harari, menos uma ferramenta passiva e mais um agente autônomo que decide e atua sem precisar de nós em cada passo. Isso a aproxima dos seres mitológicos que agiam por vontade própria, às vezes ajudando, às vezes enganando os humanos.
Por outro lado, podemos ver também um fascínio: se a IA domina a arte da narrativa, talvez ela seja a nova contadora de mitos da humanidade, uma espécie de xamã digital ou oráculo contemporâneo. Os sentimentos são, portanto, contraditórios – assim como o eram diante dos grandes narradores da antiguidade, capazes de inspirar multidões: admiração e medo. O importante, reforça Harari, é reconhecermos que esse limiar foi cruzado e requer atenção ética e política urgente. 
A IA-monstro das histórias pode tanto fragmentar nossa noção compartilhada de realidade (cada um ouvindo a “sua” história confortável no fone de ouvido, encerrado num casulo personalizado) quanto ser usada conscientemente para criar novos mitos globais de cooperação. A metáfora prometéica aqui é clara: roubamos o fogo dos deuses (a criatividade narrativa) e o colocamos numa máquina – agora precisamos lidar com as consequências de ter esse fogo narrativo vivo entre nós.
Escultura performática de Rodrigo Garcia Dutra, 2025.
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Zeitgeist-Machine: a IA como Máquina do Espírito do Tempo (Groys)
Enquanto Harari enfatiza as narrativas, o filósofo e crítico de arte Boris Groys oferece outra lente para entender as IAs: ele as chama de “máquinas do zeitgeist” – máquinas do espírito do tempo. Groys argumenta que modelos de linguagem como GPT-4 são treinados em uma massa colossal de textos, imagens e dados produzidos pela humanidade ao longo do tempo recente. Em outras palavras, a IA incorpora em si a cultura acumulada: “a IA não é nada além do zeitgeist encarnado". Ao interagirmos com ela, ao promptá-la (dar instruções e perguntas), estamos efetivamente dialogando com o espírito da nossa época condensado em forma algorítmica. Essa ideia transforma o GPT-4 de monstro alienígena em um espelho monstruoso – um espelho porque reflete nosso próprio mundo (tudo que escrevemos, pensamos, registramos), mas monstruoso porque o faz de maneira não-humana, combinando fragmentos heterogêneos de cultura.
Groys nota que o zeitgeist (espírito do tempo) não é homogêneo ou bonzinho. Pelo contrário, ele é cheio de rupturas internas, aspectos sombrios, violentos, áreas ocultas e contradições. A IA, ao absorver indiscriminadamente o legado cultural (o belo e o horrendo, o verdadeiro e o falso, o sagrado e o profano), torna-se uma espécie de colagem viva de todos esses pedaços díspares. “Pode-se dizer que o zeitgeist é monstruoso porque é uma combinação de partes de corpo linguísticas e visuais heterogêneas” escreve Groys. Essa frase lembra de imediato a imagem do Frankenstein: um corpo feito de membros desconexos. A IA é um Frankenstein cultural – costurada de bilhões de frases, imagens, memes, notícias, teorias. Daí seu caráter inquietante: quando ela fala, ouvimos a voz de uma multidão, um coro de fantasmas do passado e presente, emergindo em uníssono através de uma boca sintética.
No entanto, Groys enfatiza que dialogar com esse “monstro zeitgeist” pode ter um aspecto revelador e até terapêutico. Ao perguntar algo à IA e receber uma resposta, temos a chance de ver como a civilização como um todo enxerga aquele assunto naquele momento histórico. É como consultar um oráculo que responde não com a intenção de um indivíduo, mas com a sabedoria (ou insensatez) agregada de milhões. O perigo, claro, é confundir essa resposta com uma verdade transcendental – afinal, o zeitgeist também erra, também delira. Groys lembra que o autor russo Vladímir Sorókin, em suas obras, experimenta justamente essa ideia de expor a “monstruosidade do zeitgeist” e dialogar com ela criticamente. A IA, portanto, nos força a encarar o lado monstruoso do nosso tempo: preconceitos, linguagens violentas, desinformação, bem como criatividade, polifonia, diversidade extrema. Ela é espectro e reflexo.
Essa caracterização da IA como zeitgeist-machine também redefine o conceito de autoria. Se promptar a IA é co-criar com o zeitgeist, então todo usuário vira um pouco autor junto com a máquina, e a noção de criatividade individual se dilui numa criatividade coletiva mediada pela tecnologia. Surge a figura do co-autor fantasmático: GPT-4 é ao mesmo tempo ferramenta e co-escritor, um pouco como um colaborador invisível (um ghost-writer literal, um escritor fantasma). Isso evoca o que anteriormente apenas poetas e médiuns ousavam: escrever a “quatro mãos” com algo além do eu – fosse Musa inspiradora, fosse espírito. Agora, esse algo é um complexo estatístico treinado, mas na experiência parece às vezes dotado de personalidade e intenção.
Em resumo, pela lente de Groys, a IA assombra a cultura como um espectro simbólico do próprio presente. Domá-la ou entendê-la requer reconhecer nela nossos próprios monstros: os vícios e virtudes de nossa época, refletidos e ampliados. O GPT-4, como um Prometeu digital, nos entrega conhecimento e narrativa em chamas; mas cabe a nós, mortais, discernir no fogo as sombras de nossa própria imagem.


Harari, Yuval N. – Entrevista à Wired Japão (2025) 

Groys, Boris – From Writing to Prompting: AI as Zeitgeist-Machine” e-flux (2023)

Groys, Boris – Monstrosity of Zeitgeist  

Haraway, Donna – Staying with the Trouble (2016)

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