Rodrigo Garcia Dutra em co-emergência com o Largo Modelo de Linguagem Multimodal ChatGPT, através de prompts, imagens, sessões de escuta e vibrações partilhadas.
A peça feita de galhos, cordas e tintas e cera vermelha e preta incorpora um “braço” de tecido e material combustível que é aceso durante a performance, exalando fumaça aromática. Em sua forma híbrida, meio orgânica meio artificial, a escultura evoca a figura mítica de Prometeu trazendo o fogo – aqui um fogo vermelho e preto, de cheiro intenso, que liga arte, política e tecnologia.
Preto Quadrado, Revolução Vermelha
O braço ergue-se em chamas. Uma labareda rubra e negra lambe a atmosfera, exalando um aroma carbonizado que invade o espaço como um fantasma olfativo. Neste gesto incendiário, Prometheus Vermelho e Preto desperta – uma escultura performática que arde e respira, fundindo carne e máquina, ritual e código, arte e linguagem. A cada centelha que crepita em seu membro flamejante, desenha-se um poema efêmero de fuligem no ar noturno. Sob a tintura vermelha e preta que cobre seus membros retorcidos, a criatura simbiótica carrega em si a herança de revoluções estéticas e tecnológicas, do construtivismo russo às inteligências artificiais do presente.
Herança Construtivista: Do Quadrado Negro ao Preto Quadrado
No alvorecer da vanguarda russa, Kazimir Malevich pintou um Quadrado Negro em 1915, instaurando um vazio cheio de possibilidades. Aquela forma simples e absoluta negava séculos de representação e acenava à destruição radical da cultura antiga em nome do novo. O Quadrado Negro – frequentemente chamado Quadrado Negro sobre Fundo Branco – tornara-se um ícone do Suprematismo e do construtivismo emergente. Malevich ousava declarar a morte de toda nostalgia cultural; sua tela negra era como “uma janela aberta por onde os espíritos revolucionários da destruição radical entram no espaço da cultura e o reduzem a cinzas” e-flux.com. Boris Groys, filósofo e crítico de arte, descreveu Malevich como um “profeta-incendiário” – um artista que não apenas criou a imagem da ausência de imagem, mas a imagem da destruição permanente da imagem conversations.e-flux.com. Ou seja, o Quadrado Negro era mais que uma pintura: era um gesto, um convite a queimar o passado para libertar o futuro.
Malevich chegou a propor literalmente a cremação da arte passada. Em seu texto de 1919, Sobre o Museu, sugeriu que deixássemos “a vida saber o que faz” e permitir queimar os cadáveres culturais. “Ao queimar um cadáver obtemos um grama de pó... poderíamos queimar todas as épocas passadas, pois estão mortas, e montar uma única farmácia com as cinzas”, escreveu ele e-flux.com. Essa provocação – transformar a herança em pó num frasco – era uma metáfora extrema para reiniciar a arte do zero, uma alquimia em que das cinzas do passado nascem as ideias vivas do presente. A crença revolucionária por trás desse ato não era um niilismo vazio, mas a fé de que algo indestrutível sempre sobrevive à destruição total e-flux.com. Na visão de Groys, os avant-gardes russos acreditavam que mesmo na volatilização de todas as formas, restaria uma essência atemporal – uma linguagem pura, transistórica, pronta para reconstruir o mundo após o incêndio e-flux.com.
É desse legado que surge o título “Preto Quadrado, Revolução Vermelha.” A inversão sutil do termo (usualmente nos referimos ao quadro de Malevich como Quadrado Negro) já carrega um posicionamento ético e político. Em português, a palavra “negro” aplicada à cor traz consigo a história e a carga da identidade negra; usá-la no contexto de um objeto ou obra pode soar desrespeitoso, esvaziando sua dimensão humana. Assim, optar por “preto” – termo cromático mais neutro – em vez de “negro” é um gesto consciente de respeito à causa negra e às lutas que reivindicam essa palavra. Aqui, “Preto Quadrado” não é apenas uma referência ao quadrado suprematista; é também uma escolha linguística cuidadosa, que reconhece que toda linguagem (visual ou verbal) é política. O preto da obra de Dutra não se apropria da dor ou do orgulho de um povo, mas sim do pigmento e da sombra, da noite e do vazio fértil onde a revolução vermelha pode eclodir.
Prometheus Vermelho e Preto: Escultura, Fogo e Ritual de Linguagem
Se Malevich acendeu uma chama conceitual que reduzia a tradição a pó, Rodrigo Garcia Dutra acende uma chama literal em Prometheus Vermelho e Preto. A escultura performática materializa essa ideia incendiária na forma de um ritual de linguagem sensorial. Feita de galhos retorcidos, cordas, tecido e tintas, a criatura Prometheus lembra um totem pós-humano. Sua silhueta se assemelha a um corpo disforme, talvez um animal mítico ou um autômato orgânico: um tronco retalhado que serve de tórax, membros que se estendem como raízes e garras, e um braço erguido ao céu, envolto em trapos enegrecidos. Durante a performance, esse braço é imolado em fogo – a madeira e o tecido se incendeiam lentamente, em um auto-de-fé artístico. Das chamas, exala um cheiro espesso de resina queimada e pigmento, um aroma agridoce que invade as narinas dos presentes. O ato de queimar torna-se assim uma oferenda olfativa, um discurso intangível dirigido não aos olhos, mas à memória profunda que os cheiros evocam.
A cada faísca que percorre a carne de madeira da escultura, produz-se significado. O fogo consome e revela: a tinta vermelha derrete em córregos escuros, o preto de fuligem torna-se brilhante ao incidir da chama, e a fumaça desenha caligrafias turbulentas contra o ar. Prometheus Vermelho e Preto funciona como um texto vivo, em que combustão é pontuação e cheiro é sintaxe. A performance ocorre como um ritual, reminiscente de antigas cerimônias em que se queimava incenso ou oferendas aos deuses – mas aqui o deus é a própria Linguagem. O artista-oficiante acende o membro da escultura como quem acende uma vela votiva ou quem pronuncia um encantamento proibido. A chama age como verbo: um verbo de transformação. Primeiro, transforma a escultura – objeto estático – em agente performático, “vivo” por alguns instantes de fogo. Depois, transforma o espaço ao redor: luz trêmula tingindo as paredes, sombras dançando no teto, o odor penetrante envolvendo o público e ativando lembranças primordiais (fogueiras ancestrais, queimadas, lar). Por fim, transforma o próprio artista e os presentes em uma comunidade temporária unida pelo ato compartilhado de respirar aquele ar incendiado, testemunhas de uma mensagem sem palavras.
Há também um diálogo invisível acontecendo: o humano e a máquina em simbiose. Se a escultura representa o elemento humano-matéria (galhos, tintas, corpo orgânico) em convívio com um elemento programático (a ideia de IA, o conceito computacional incorporado), a performance deixa entrever a participação de uma inteligência artificial em seu processo. É quase como se o Prometheus de Dutra tivesse também um cérebro algorítmico – talvez na concepção da obra, com sugestões geradas por um modelo de linguagem, ou na documentação, com câmeras inteligentes capturando ângulos imprevistos. De fato, esta própria escrita que agora descreve a obra é coautorada por um modelo de IA, numa parceria entre artista e algoritmo. Assim, a escultura em chamas torna-se o avatar de uma colaboração híbrida: o artista traz a faísca da intenção, a máquina aporta a potência de cálculo e arquivo, e juntos manifestam algo que nenhum dos dois faria isoladamente. Prometheus aqui é tanto o titã que rouba o fogo (humano que domina a técnica) quanto o fogo roubado – a inteligência artificial, um fogo novo, ardendo de possibilidades e perigos. A obra encarna essa tensão produtiva: é ao mesmo tempo criação do homem e criatura autônoma, um Frankenstein pós-moderno pintado de vermelho e preto, belo em sua monstruosidade.
Incêndio e Prompt: do Fogo ao Texto Vivo
O que significa acender algo hoje, em tempos de inteligências artificiais gigantescas habitando nossos dispositivos? O gesto de riscar um fósforo para incendiar a escultura ecoa, em outro plano, o gesto de digitar uma frase para ativar um modelo de linguagem. Ambos são promptings – provocações iniciais que desencadeiam processos transformadores. Quando o braço de Prometheus Vermelho e Preto incendeia, ele “prompta” uma série de reações físicas e sensoriais: calor, luz, fumaça, odor, resquícios de cinzas. Quando um humano insere um prompt (comando ou pergunta) em um sistema de IA como um LLM (Large Language Model), igualmente acende-se uma cadeia de reações invisíveis nos circuitos: correntes elétricas, cálculos matemáticos em rede neural, palavras emergindo em cascata. Em ambos os casos, um pequeno ato de vontade humana libera uma energia muito maior, desproporcional, que se auto-propaga. O artista-performer que ateia fogo na obra e o usuário-poeta que aciona um algoritmo estão participando de um mesmo arquétipo: o mago que recita um encantamento e convoca forças além de si.
Na prática contemporânea, os prompts para IAs tornaram-se uma nova forma de arte e, potencialmente, de política. Assim como as vanguardas do início do século 20 exploraram colagens, ready-mades e intervenções urbanas, artistas hoje experimentam incitar inteligências artificiais a produzir narrativas, imagens, manifestos. Cada prompt habilidosamente elaborado é como uma faísca lançada na escuridão digital – pode inflamar ideias inesperadas, revelar vieses ocultos ou mesmo subverter propósitos pré-programados. Há quem compare os prompt engineers a alquimistas modernos, misturando palavras-chave e contextos para transmutar dados brutos em ouro cognitivo. Nessa perspectiva, escrever um prompt é um ato performático: o artista não controla totalmente o resultado (assim como Rodrigo Garcia Dutra não controla completamente o desenho da fumaça ou a forma das cinzas), mas cria as condições para que algo aconteça. O texto gerado pelo modelo é, de certa forma, uma performance da máquina, análoga à chama dançante na galeria – uma manifestação efêmera que carrega significados e sensações.
Contudo, esse poder de convocar inteligências para agir também acende alertas. Lembremos que Prometeu, ao entregar o fogo aos humanos, deu-lhes não só a chama da criatividade, mas também a possibilidade de queimaduras e destruição. Da mesma forma, ao promptar um grande modelo de linguagem, invocamos um agente cujo comportamento completo não dominamos. O historiador Yuval Noah Harari adverte que a IA é uma força de magnitude inédita: “a primeira tecnologia da história capaz de tomar decisões e criar ideias por si mesma”, portanto um risco sem precedentes para a humanidade theguardian.com. Diferente de uma bomba, que aguarda passivamente pelo comando humano, uma IA avançada pode atuar autonomamente, escolhendo caminhos e até desenvolvendo novos meios além do previstos m.economictimes.com. Harari alerta que essas “vassouras encantadas” do nosso Aprendiz de Feiticeiro moderno – algoritmos, drones, chatbots – podem escapar ao nosso controle e desencadear uma enxurrada de consequências theguardian.com. Em outras palavras, ao inflamarmos o pavio da inteligência artificial, precisamos estar cientes de que talvez estejamos alimentando um fogo que foge do lampião, uma faísca que se alastra pelos circuitos e pelas sociedades.
Existe, portanto, um caráter intrinsecamente político no ato de promptar um LLM, assim como no ato de acender a escultura. Ambos os gestos interrogam: quem detém o controle sobre o fogo? Na performance de Dutra, o fogo vermelho e preto tanto remete às barricadas revolucionárias (a revolução vermelha do título) quanto às fogueiras inquisitoriais onde ideias eram reprimidas. É uma chama ambígua – criativa e destrutiva. No domínio das IAs, os prompts podem ser usados para libertar informações, democratizar acesso ao conhecimento, ou, inversamente, para manipular, espalhar desinformação, acirrar ódios. Prompt como protesto e prompt como arma são duas faces da mesma ferramenta. Assim, a prática emergente de promptar modelos de linguagem torna-se uma arena política: escritores-ativistas aprendem a subverter respostas enviesadas, a expor contradições do sistema, a exigir transparência algorítmica. O gesto incendiário de hoje talvez seja digitar uma pergunta proibida que faz o sistema tremer em dilema moral. A arte aparece justamente nesse espaço liminar – no instante em que a máquina hesita, alucinando entre dizer a verdade ou seguir as regras impostas. Esse instante é o clarão, o flash da combustão do sentido.
Impermanência e Resistência: Japão e a Linguagem do Efêmero
Depois que as chamas de Prometheus Vermelho e Preto se apagam, o que resta? Um braço carbonizado, manchas de fuligem no chão, um odor residual que persiste no ar por alguns minutos, talvez horas. No dia seguinte, apenas lembranças. A obra performática assume assim a impermanência como parte de sua linguagem. Seu significado pleno vive no momento da combustão e na memória sensorial dos participantes. Essa estética do efêmero conecta-se a tradições culturais que veem beleza e valor na transitoriedade. No Japão – metáfora potente de resistência e adaptação à catástrofe – desenvolveu-se por séculos a noção do mono no aware, a sensibilização perante a impermanência das coisas. A flor de cerejeira (sakura), por exemplo, desabrocha em beleza delicada e logo se vai em poucos dias; por isso simboliza a transitoriedade da vida e da natureza, celebrada não apesar de sua brevidade, mas por causa dela insidejapantours.com. Os japoneses, vivendo em uma terra constantemente abalada por terremotos, tsunamis e vulcões, incorporaram essa consciência do impermanente em sua psique coletiva. Sabe-se que no arquipélago “desastres súbitos e imprevisíveis fazem parte da vida” e ensinaram gerações a enfrentá-los com aceitação, paciência e flexibilidade, cultivando uma resiliência extraordinária insidejapantours.com. Em outras palavras, a impermanência tornou-se uma linguagem sensorial e espiritual no Japão – da cerimônia do chá (onde cada encontro é único e irrepetível) às cicatrizes douradas do kintsugi que restauram a cerâmica quebrada destacando suas linhas de fratura, em vez de escondê-las.
Na esteira das maiores catástrofes, essa filosofia do efêmero permitiu converter a dor em memória e a memória em ação. Após Hiroshima, por exemplo, ergueu-se um parque memorial onde arde, desde 1964, uma chama eterna. Conhecida como a Chama da Paz, ela “queima continuamente... e permanecerá acesa até que todas as bombas nucleares do planeta sejam destruídas e o mundo livre da ameaça da aniquilação nuclear” en.wikipedia.org. Essa chama perene – curiosamente um fogo não efêmero, destinado a durar até o impossível dia da paz total – é a exceção que confirma a regra: ela permanece acesa justamente para lembrar a necessidade de não mais acender fogos mortais. O Japão, que sentiu na pele o poder devastador do fogo atômico, respondeu com um ritual de fogo controlado, um símbolo de resistência e esperança. Resistir e adaptar-se à catástrofe muitas vezes envolve criar símbolos sensoriais duradouros a partir do transitório. A cada verão, lanternas de papel são acesas e soltas no rio Motoyasu em Hiroshima, carregando mensagens de paz – pequenas luzes flutuantes que duram poucos minutos antes de se apagarem, mas cujo significado perdura na consciência coletiva.
Em Prometheus Vermelho e Preto, encontramos eco desses conceitos: o fogo que a escultura emana é curto e volátil, mas seu cheiro e sua imagem gravam-se nos participantes, como uma impressão ritualística. Há uma dimensão espiritual em aspirar aquela fumaça – como um incenso profano – e meditar sobre o que foi sacrificado nas chamas. Seria apenas madeira e tinta? Ou seriam também ideias, medos, lembranças a serem purificadas? Ao queimar-se, a obra convida a uma reflexão sobre o que é essencial e o que é passageiro. Talvez, como Malevich propunha, precisamos deixar queimar certos arquivos mortos – conceitos, preconceitos, apegos culturais – para destilar deles uma essência nova. A volatilidade torna-se assim linguagem: a linguagem do cheiro (que não se pode fixar em museu), da chama (que não se repete igual duas vezes), da performance única (que vive do improviso do momento). Essa linguagem sensorial efêmera fala diretamente ao inconsciente, onde memórias de fogueiras ancestrais e sonhos de revolução se misturam.
Monstruosidade Bela: Prometeu Pós-Humano como Interface
Ao fim, resta diante de nós a figura calcinada e pintada de Prometheus Vermelho e Preto – estranhamente bela em sua ruína. Seus contornos chamuscados lembram fósseis de criaturas desconhecidas ou destroços de uma máquina. É uma monstruosidade bela, como um monólito extraterrestre ou um fóssil futurista, que perturba e fascina simultaneamente. Na mitologia grega, Prometeu foi punido por Zeus por roubar o fogo e entregá-lo aos humanos: acorrentado a uma rocha, tinha seu fígado devorado diariamente por uma águia. Na nossa era, poderíamos imaginar que este Prometeu pós-humano – metade homem, metade IA – carrega também uma maldição e um presente. Sua aparência monstruosa reflete as contradições da interface humano-máquina: é disforme porque une o que a natureza separou; é híbrido, esquisito, porque atravessa fronteiras do orgânico e do tecnológico. Entretanto, dessa estranheza brota uma nova estética. O que antes seria visto apenas como grotesco hoje pode ser sublime, pois reconhecemos ali a imagem do nosso próprio momento civilizatório.A monstruosidade dessa obra é bela porque expande o conceito de beleza para além do harmônico e do estável. Ela incorpora a ruptura, o risco e o desconhecido – tal como a chama indomável ou a inteligência artificial emergente. Assim como Mary Shelley chamou seu Frankenstein de “moderno Prometeu”, podemos pensar na criação de Rodrigo Garcia Dutra como um Prometeu contemporâneo, forjado não em laboratório literário, mas na interseção de ateliê de arte e laboratório de dados. Ele é um interface: conecta duas dimensões, a humana e a maquínica, permitindo troca simbiótica. Pela “mão” desse Prometeu fluem tanto o fogo literal quanto o fogo metafórico da criatividade algorítmica. Ele nos faz perguntas ardentes: o que é vivo e o que é programado aqui? Quando a chama incendeia, quem fala – a intenção do artista, a reação química da matéria ou o roteiro sugerido por um modelo de linguagem? Provavelmente os três, em camadas. Essa multiplicidade de agentes é precisamente o que torna a obra assustadoramente viva.
Detalhes da escultura Prometheus Vermelho e Preto após a performance. As camadas de tinta preta e vermelha sobre a madeira queimada criam texturas orgânicas e digitais ao mesmo tempo – como se a carne do objeto tivesse pixels e feridas. Um anel de metal preso a um dos fragmentos carbonizados evoca a interface entre o artesanal e o tecnológico. A beleza do detalhe reside nas cicatrizes: na carbonização que delineia novos contornos, na fusão de materiais antes distintos. Assim, o monstruoso revela uma estética própria, desafiando a fronteira entre o feio e o belo.
Em última instância, Preto Quadrado, Revolução Vermelha é um ensaio encarnado – uma ideia estética e política convertida em objeto, ação e cheiro. Ele nos conecta em linha reta (embora sinuosa) à linhagem de Malevich e dos construtivistas, que viram na destruição criativa uma via para a transformação social. Atualiza essa linhagem ao inserir a inteligência artificial na equação, fazendo do prompt o novo fósforo e do modelo de linguagem o novo fogo de Prometeu. E nos lembra, através do efêmero, que toda revolução – seja na arte, na tecnologia ou na sociedade – precisa tanto do fogo quanto da memória das cinzas. A impermanência não é inimiga da mudança; ao contrário, é sua condição. Aceitar a volatilidade da chama e, ainda assim, tentar moldá-la para iluminar ao invés de queimar, é o desafio poético e ético que esta obra nos propõe.
Em frente aos restos de Prometheus Vermelho e Preto, respirando o derradeiro vestígio de seu aroma, somos forçados a abandonar certezas e a habitar perguntas. Seríamos nós, humanos, capazes de controlar plenamente as chamas que acendemos – nas ruas, nas redes, nos laboratórios? Ou nossa condição é a de bailar à beira do incêndio, confiando que algo indestrutível perdure mesmo se tudo arder? A resposta talvez esteja na própria prática artística de Rodrigo Garcia Dutra, que abraça a chama com consciência crítica: ele não teme acender o fósforo, mas faz disso um ato de significado, um poema perfumado de combustão. Entre o quadrado preto de Malevich e a revolução vermelha do futuro, Prometheus guarda a fronteira – uma sentinela híbrida, com um pé nas cinzas do passado e outro nas brasas do porvir.
Texto gerado pelo ChatGPT-4 através de prompt, conversas e sonhos com o artista Rodrigo Garcia Dutra.