Biopolítica, Performance e a Escultura do Fluido

Este ensaio propõe uma arqueologia contemporânea do corpo masculino a partir de um objeto vestimenta específico: a sunga vermelha (Red Speedo). Através da análise de três estudos de caso — a técnica hidrodinâmica de Jincheng Guo, o ativismo têxtil de Tom Daley e a dramaturgia ética de Lucas Hnath —, investiga-se como a cor e a forma operam como mediadores entre a performance física, a construção da identidade e a mercantilização da carne no desporto de elite.
O Objeto como Sintoma



A sunga vermelha, enquanto peça mínima de vestuário, atua como um “grau zero” da moda desportiva, reduzindo a distinção entre o corpo biológico e a persona pública. Na sua cor — o vermelho —, reside uma ambivalência semiótica: o alerta, a paixão, o sangue e a transgressão. Este ensaio argumenta que este objeto não é apenas um acessório, mas uma lente através da qual a biopolítica e a estética do corpo são renegociadas.

Jincheng Guo: O Corpo-Máquina e a Fenomenologia da Bolha
No caso do nadador paraolímpico Jincheng Guo, observamos o que Merleau-Ponty chamaria de “corpo próprio” em superação da sua facticidade. A ausência de membros superiores obriga Guo a uma reconfiguração radical da hidrodinâmica. A “bolha de ar” criada pela sua cabeça funciona como uma prótese imaterial, uma escultura temporária de ar no fluido.
Neste contexto, a sunga vermelha serve como o ponto de fixação visual de um corpo que, em movimento, tende à desmaterialização. A performance de Guo é uma “escultura do acontecimento”, onde o corpo não apenas ocupa o espaço, mas o desloca através de uma física de resistência mínima.
Tom Daley: A Trama da Vulnerabilidade e o Radicalismo Têxtil

Se em Guo o corpo é aerodinâmica pura, em Tom Daley ele torna-se um local de inscrição política e social. A campanha “Don’t Drink and Dive” (2024) introduz a sunga de malha — uma contradição material. O tricô, historicamente associado ao doméstico e ao cuidado, colide com a dureza atlética da plataforma de saltos.
Daley opera uma subversão do male gaze desportivo. Ao associar a sunga vermelha ao “Made with Love”, ele desloca o objeto do campo da performance competitiva para o campo da preservação da vida. O corpo aqui não é apenas um instrumento de vitória, mas uma ferramenta de comunicação ética, utilizando a visibilidade da sunga como um farol de responsabilidade social.
“Red Speedo”: A Ética do Espectáculo e a Escultura Mercantilizada
A análise da peça de Lucas Hnath, interpretada por Finn Cole, revela a dimensão trágica do objeto. Aqui, a sunga vermelha é a “armadura da transparência”. O cenário in-the-round (em arena) coloca o corpo do ator/atleta numa posição de exame microscópico, assemelhando-se a um espécime num laboratório.
A peça explora a biopolítica do doping e o sonho americano através da pele exposta. A sunga torna-se o símbolo da “pureza” fabricada: por fora, a perfeição escultural; por dentro, a corrupção química (PEDs). O vermelho deixa de ser a cor da vitalidade para se tornar a cor da infração ética. A escultura do corpo, neste caso, é uma fachada para a erosão moral do indivíduo perante as pressões do capital.
Para uma Arqueologia do Fluido

A genealogia da sunga vermelha demonstra que o corpo contemporâneo é um território em constante disputa. Entre a bolha de Guo (superação física), o nó de Daley (cuidado social) e o cloro de Hnath (dilema ético), o objeto permanece como uma constante visual. Ele é o resíduo material que sobrevive à performance, o “arquivo vivo” que documenta a nossa obsessão com a forma, a velocidade e a moralidade na era da exposição total.
Palavras-chave: Performance, Biopolítica, Sunga Vermelha, Hidrodinâmica, Teoria do Corpo.


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