Cheguei ao Pontal sem a expectativa de encontrar ali algo que se pudesse chamar, com seriedade, de um novo distrito de arte. O que encontrei foi outra coisa. Um conjunto de situações que não se apresentava como instituição no sentido clássico, mas que operava com a mesma intensidade simbólica de uma grande fundação internacional.

Havia uma bienal em curso no Morro do Rangel, onde obras e espécies vegetais compartilhavam o mesmo regime de atenção. Não se distinguia com clareza o que havia sido plantado, o que havia sido instalado e o que simplesmente já estava ali há décadas.

Mais adiante, na Pedra do Pontal, funcionava um instituto de arte contemporânea sem edifício. O instituto parecia existir mais como acordo coletivo do que como arquitetura. As pessoas sabiam quando estavam dentro dele.

Nas praias, a lógica se radicalizava. Em Abricó, um festival internacional propunha uma experiência de observação em que artistas, curadores e público compartilhavam um mesmo estado de exposição do corpo. A nudez não era espetáculo. Funcionava como método para suspender códigos que normalmente organizam o olhar. As obras eram vistas com uma atenção estranhamente precisa.

No Pontal, uma feira de arte acontecia diretamente na areia. Cavaletes improvisados, trabalhos recém feitos ao lado de obras maduras. Qualquer pessoa podia participar. Artistas locais que nunca haviam exposto dividiam espaço com visitantes que chegavam de outros países carregando seus trabalhos à mão. Não havia seleção. O critério parecia ser apenas a decisão de mostrar.
À noite, em Grumari, festas e jantares se organizavam como verdadeiros dispositivos curatoriais. Era ali que se descobriam afinidades, que obras trocavam de mãos, que pessoas que jamais se identificaram como público de arte se viam envolvidas em conversas sobre pintura, paisagem e tempo. A comida, o fogo, a música e o corpo coletivo produziam um tipo de conhecimento que nenhum catálogo conseguiria registrar.
O que mais me surpreendeu foi perceber que uma mitologia já habitava aquele território muito antes da chegada desse projeto. O filme Menino do Rio havia sido filmado ali. A novela Top Model também. Havia uma memória imagética latente, uma predisposição narrativa do lugar.

Desde 2023, um artista passou a trabalhar ali de forma contínua, transformando o Pontal em lugar de fala, de sonho e de proposição. Pinturas, esculturas e textos começaram a se organizar em relação direta com a paisagem, não como representação, mas como resposta. Aos poucos, figuras recorrentes emergiram. Um domo que parecia ter se erguido por vontade própria. Quatro pinturas que davam a impressão de se auto produzir. Dançarinos que migravam de sistemas algorítmicos para superfícies orgânicas como se o corpo aprendesse novos modos de inscrição. Um inseto oracular que conectava pessoas improváveis. Um sol que surgia e desaparecia no alto da pedra, agindo menos como cenário e mais como personagem atento ao que se passava abaixo.
Nada disso era apresentado como crença. Tudo funcionava como camada de leitura disponível. Cada visitante escolhia como se relacionar com esse conjunto de narrativas, obras e situações.
Saí do Pontal com a sensação rara de ter testemunhado algo que ainda está em processo de se tornar real. Um projeto que existe plenamente no plano da imaginação, da escrita e da imagem generativa, mas que já produz efeitos concretos sobre como se pensa exposição, território e comunidade. Não seria a primeira vez que uma ficção bem sustentada decidisse permanecer no mundo.


Deixe um comentário