Shelter (Abrigo) 十四, 2024
Troncos, galhos, cipós e quadrado preto com intervenções em pintura óleo, acrílica, verniz caseiro (cola branca, alcohol e oleo de soja), carbonato de cálcio e cera de abelha. 
240 x 180 x 120 cm
"A obra está viva.
Ela respira, muda, reage.
Não é um ponto final, é um pulso contínuo.
Durante a exposição, ela se deixa tocar pelo mundo — e muda.
Porque o artista também muda.
E juntos, seguem vivos."

Essas imagens são fragmentos de um processo em mutação.
Amanhã, o que você verá talvez já tenha mudado. E isso é bom.
Essa é a beleza de estarmos vivos.
Quando olhamos para Shelter (Abrigo) 十四, não estamos diante de uma obra exposta, mas de uma presença que se manifesta. A escultura não representa: ela aparece. Ela se mostra no mundo como um organismo que respira e reage, e não como um objeto autônomo e isolado. A pintura suspensa dentro do abrigo é um quadrado preto que não busca anular o mundo com sua neutralidade suprematista, como em Malevich, mas que se insere no mundo como um corpo atravessado por forças e processos.

O verniz usado para fixar a pintura é caseiro: uma mistura de cola branca, álcool e óleo de soja. Essa receita, que é quase alquímica, se junta ao carbonato de cálcio e à cera de abelha para criar uma superfície que não sela, mas respira. Uma pele pictórica que absorve o tempo, o calor, o vento, o toque da luz. A matéria aqui é viva, porque ela participa das forças que a constituem. E essa matéria viva não se apresenta como produto final, mas como registro de uma interação em curso.

A própria escolha de usar os kanji 十四 ("14") em vez de algarismos romanos não é um detalhe. Recusar os códigos do império romano é também uma maneira de deslocar a narrativa temporal da história da arte. O número deixa de ser apenas um registro e passa a ser imagem. O Shelter se torna pictograma. Signo. Presença.

Esse abrigo, feito de galhos e cipós, é um dispositivo sensível. Ele sustenta, mas não domina. Ele levanta a pintura do chão como quem apresenta uma oferenda. E a pintura, em resposta, não se oferece como vitrine, mas como membrana. Ela não quer ser decifrada, mas sentida. Ela reverbera.

O quadrado preto, nesse contexto, é uma fresta. Um buraco-preto que não suga, mas emite. Uma zona densa de matéria, desejo, cor e poeira. Uma rosa queer feita de pólen e intuição. Aqui, a arte é relacional não porque interage com o espectador, mas porque ela é feita da mesma substância do mundo: de encontros, de interdependências, de misturas.
Shelter 十四 é, assim, um ponto de colapso e nascimento. Uma pintura que escapa da parede, um abrigo que se recusa a ser apenas escultura, uma matéria que se recusa a ser domada. Ela está viva. E não porque imita a vida, mas porque é composta pelas mesmas forças que fazem brotar uma flor, um fungo, uma estrela.
Em alinhamento com a proposta conceitual para o ano de 2025 do Departamento Cultural da UERJ, a exposição busca refletir e problematizar as relações entre a universidade e os ecossistemas possíveis; aqui compreendidos como diversos universos humanos e não-humanos. 
Interessa-nos pensar quais são as possíveis combinações entre corpos, paisagem, arquitetura, ciência, cidades e memória. Embora possa parecer consideravelmente ampliada, a exposição tem uma preocupação conceitual específica: a possibilidade de construirmos coletivamente um pensamento-floresta. 
A partir da experiência vegetal, apostamos em um conjunto de sinapses e de eletricidades que nutrem cada trabalho e que ao mesmo tempo, alimentam as redes de relações e afetos entre si. Nesse sentido, não se trata unicamente de um conjunto de trabalhos que versam sobre a natureza, mas de propostas artísticas que são capazes de discutir suas próprias naturezas e seus processos de construção e/ou desfazimento. O interesse é erigir uma atmosfera poética que reflita um pequeno legado da História da Arte dentro de uma certa tradição brasileira."

Shelters (Abrigos) na Exposição Cândido ou O Otimismo. 

Galeria Cândido Portinari e Gustavo Schnoor, Campus Maracanã, UERJ. Rio de Janeiro

Curadoria:
Alexandre Sá, Ana Tereza Prado Lopes, Fernanda Pequeno, Gustavo Barreto
@pictotexto @anaterezapradolopes @pequenocronopio @gus_barret
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