Tabom e a Descoberta da Linha Orgânica
Minha produção percorre diferentes camadas: das esculturas efêmeras que nomeio Shelters/Abrigos e Proposições, criadas com materiais coletados em espaços públicos e reservas ecológicas, até as pinturas porosas, multidimensionais e de combustão lenta — obras que se revelam também pelas camadas políticas e afetivas que as atravessam.
Destaco ainda o projeto Linguagem da Serpente, inspirado na teoria das cordas e que dialoga com modelos de linguagem atuais — como o Epistolário com a Máquina, ChatGPT Time e Camadas/Membranas Cosmológica — abrindo espaço para escutas e reflexões em diálogo com a inteligência artificial.
Tabom como Obra-Abrigo
Tabom é composta por um palete de madeira, um tecido Kente do povo Ashanti e dois livros de capas gráficas e temas simbólicos. O palete atua como estrutura organizadora e também criadora de vazios — espaços negativos que, à maneira de Lygia Clark, ganham potência expressiva como canais de conexão entre os elementos. Esses intervalos funcionam como zonas de troca, quase como buracos de minhoca metafóricos, por onde fluem significados e subjetividades.
O tecido Kente tensiona o cânone eurocentrado ao trazer à cena uma forma tradicional africana coletiva, estabelecendo um diálogo crítico com o conceito ocidental de arte moderna. A obra propõe uma reconfiguração das hierarquias simbólicas e amplia as fronteiras do que entendemos como arte.
Convergência que Amplia Leitura da Obra
O livro In Praise of Shadows, com sua capa gráfica que apresenta um grid contendo um círculo inscrito, reforça o vínculo da obra com a história da arte moderna e com a universalidade das formas arquetípicas. A grade — estrutura recorrente na arquitetura e arte modernas — e o círculo — símbolo ancestral associado ao sol, à lua e à percepção cíclica do mundo — conferem à peça uma dimensão transcendente e atemporal.
Esse diálogo entre formas africanas, brasileiras, europeias e japonesas se estende também à arquitetura do MASP, projetado por Lina Bo Bardi. O edifício, com seu corpo suspenso e linhas limpas, evoca os palácios flutuantes do Japão, como o complexo Katsura, raiz já assimilada pela arquitetura moderna ocidental. Há, portanto, uma convergência entre estética, cultura e memória que amplia a leitura da obra para além de suas referências imediatas.
Formas Arquetípicas, Vetores Atemporais
O grid da capa de Building on a Construct – The Adolpho Leirner Collection of Brazilian Constructive Art at the Museum of Fine Arts, Houston apresenta vetores que podem ser lidos como setas num movimento cíclico (direita, baixo, esquerda, cima) ou como cubos tridimensionais de superfície branca contrastando com laterais em sombra preta. Essa ambiguidade formal evoca não apenas a universalidade das figuras geométricas, mas também reforça o diálogo com In Praise of Shadows, assumindo-se como uma alegoria moderna da caverna de Platão: as formas que percebemos são, na verdade, manifestações de suas sombras projetadas.
Essa materialização dialógica ocorre por um processo que batizamos de SIMPOIÓTICO — uma fusão de sympoiesis (Haraway) e autopoiesis (Maturana & Varela), pelo qual o objeto, o observador e o contexto coevoluem sem perder sua capacidade de autogeração. Nesse sentido, cada vetor-cubo, cada sombra e cada vazio é ao mesmo tempo efeito e agente de um sistema em constante transformação, cristalizando-se em arte pela ação conjunta do visível e do invisível.
Vazio, Estranhamento e Ecologia
Em paralelo, desenvolvo proposições tridimensionais em paisagens naturais da Zona Oeste do Rio de Janeiro. São desenhos geométricos vivos, por vezes quase orgânicos, outras lembrando pirâmides ou estruturas cibernéticas — cyber shelters que funcionam como antenas, coletores e abrigo. Muitas delas incorporam o lixo local, em ações educativas com a comunidade, e ativam reflexões sobre cuidado e coletividade, evocando ideias como Make Kin e Children of Compost, de Donna Haraway.
A beleza dessas formas incomuns — o que poderíamos chamar de “queer” no sentido do estranho, do não-normativo — emerge da delicadeza e da força de sobrevivência da natureza, resistindo aos padrões convencionais de estética e representação.
Pinturas como Reparo Histórico
Nas pinturas e composições modulares recentes, lanço luz sobre narrativas silenciadas, como a da sexualidade queer de figuras históricas — Leonardo da Vinci, Salai, Burle Marx — e a minha própria trajetória, marcada por experiências de apagamento, vergonha e discriminação.
Ao associar o desejo à prática artística, busco abrir espaços de reflexão sem me expor à lógica perversa do assédio ou da instrumentalização de hierarquias de poder. Uso metáforas, como o Quadrado Negro de Malevich, como sensores para esses temas, criando pontes entre o pessoal e o universal, entre o passado e a urgência do presente.