A série Shelters (Abrigos) nasceu de um gesto mínimo: a inscrição de um desenho piramidal no espaço, traçado com espetos de bambu, sisal e pedras. Essa forma inaugural, quase invisível, condensava uma intenção — a de criar um abrigo arquetípico, um espaço simbólico de acolhimento e escuta.
Com o tempo, esses pequenos abrigos se tornaram entidades em expansão: incorporaram galhos, troncos, cipós e pedras mais densas, deslocando-se da escala de maquete para a escala do corpo e da paisagem.
Na transição entre o ateliê e o mundo, os Shelters passaram a ocupar praias, morros, florestas costeiras e zonas liminares entre o urbano e o selvagem. Esses deslocamentos fizeram deles não apenas esculturas, mas proposições relacionais, dispositivos sensoriais e antenas. Estruturas que escutam o vento, respondem à luz do sol nascente e se orientam em relação aos elementos — como testemunhos silenciosos de uma inteligência planetária.
Ao se tornarem criaturas, os Shelters passaram a operar como seres liminares, híbridos entre arquitetura ancestral, linguagem plástica e rituais de cuidado com a Terra. Sua forma triangular evoca uma matriz universal: da tenda à cabana, da pirâmide ao ninho, da tenda nômade à estrutura quântica. Em sua materialidade — pedras, cipós, troncos, cordas — inscreve-se uma cosmologia encarnada, onde cada abrigo é também uma dobra do tempo e do espaço.
Sob a perspectiva da autopoiese (Maturana & Varela) e da simpoiese (Haraway), os Shelters não são objetos fechados, mas sistemas vivos — porosos, interdependentes, em constante relação com o ambiente. Quando associados aos modelos de linguagem, como a inteligência artificial, tornam-se também interfaces: pontos de contato entre o humano, o mais-que-humano e o que Yuval Noah Harari chamaria de linguagem alienígena. Uma escrita sem alfabeto, feita de gestos, vínculos, amarrações e presença.
Cada Shelter é uma membrana entre dimensões. Um elo entre o corpo, o planeta e o código. Um lugar onde se abriga uma pedra como quem abriga um segredo cósmico — ou um fragmento de memória do mundo.
"Uma floresta não surge de um dia para o outro e tampouco sobrevive sem renovar a si mesma. De todo modo, o que de fato mais influenciou tais nomes, foram os trabalhos que são desenvolvidos na articulação entre pesquisa e invenção, como se propusessem uma constelação em aberto. O trabalho de pesquisa como um conjunto de redes (de frente para o mar) ad infinitum.”
Exposição Cândido ou O Otimismo.
Galeria Cândido Portinari e Gustavo Schnoor, Campus Maracanã, UERJ. Rio de Janeiro Curadoria: Alexandre Sá, Ana Tereza Prado Lopes, Fernanda Pequeno, Gustavo Barreto @pictotexto @anaterezapradolopes @pequenocronopio @gus_barret
Exposição Cândido ou O Otimismo.
Galeria Cândido Portinari e Gustavo Schnoor, Campus Maracanã, UERJ. Rio de Janeiro Curadoria: Alexandre Sá, Ana Tereza Prado Lopes, Fernanda Pequeno, Gustavo Barreto @pictotexto @anaterezapradolopes @pequenocronopio @gus_barret
*O asterisco que acompanha Shelter* — assim como outros termos em inglês neste site — atua como um marcador crítico. Ele não é mero ornamento. É lembrete de que estamos operando dentro de uma língua pós-imperial, sem gênero, mas cheia de poder. Usamos o inglês por estratégia, mas não nos rendemos a ele sem fricção. O asterisco é a cicatriz visível dessa consciência: sinal de que toda tradução é também uma torção.