Capítulo 1: Mandala Junguiana e Arte Geométrica Brasileira
A mandala, arquétipo do Self e da totalidade psíquica, é central na psicologia analítica de Jung. Ele a definiu como representação gráfica do “centro” da personalidade e da integração interna. Em nossos sonhos e criações espontâneas, esse círculo indica a centralização do ego em relação à totalidade do inconsciente. No Brasil modernista, o concretismo e o neoconcretismo acolheram formas circulares e modulares equivalentes: por exemplo, a capa de O Homem e Seus Símbolos (publicado originalmente em inglês sob o título Man and His Symbols (1964), aqui a capa é da edição especial Brasileira, Editora Nova Fronteira de 1999) exibe uma mandala geométrica elaborada, reforçando a presença desse arquétipo no design gráfico.
Em Tabom Concreto, Rodrigo Garcia Dutra explora essa interface entre geometria e cultura. Ele imprime padrões do tecido africano Kente em carvão sobre papel, compondo um reticulado abstrato que evoca rosas e mandalas tradicionais. Nas palavras do curador Gustavo Nóbrega, “as tramas e padrões geométricos” do Kente atuam como matriz para a abstração – uma espécie de resgate que o artista associa ao concretismo e a “formas atávicas”. A obra de Dutra assim dialoga com a tradição geométrica brasileira em um olhar contemporâneo.
Obra de Lygia Pape.
Obra de Lygia Pape.
Formas | Ivan Serpa, 1951
Formas | Ivan Serpa, 1951
concretismo e o neoconcretismo acolheram formas circulares e modulares
concretismo e o neoconcretismo acolheram formas circulares e modulares
Concretismo e o Neoconcretismo acolheram formas circulares e modulares.
​​​​​​​Capítulo 2: Mitos, Arquétipos e Xamanismo na Arte
Figuras míticas e xamânicas percorrem toda a história da arte. O célebre “Feiticeiro de Trois-Frères” (caverna pré-histórica na Ariége, França, c.13.000 a.C.) é interpretado como um xamã ou grande espírito protetor dos animais, indicando que a arte humana nasceu em ritual. Jung ressaltou essa herança primitiva: segundo ele, o processo criativo implica estados de transe, dança e êxtase – condição conhecida entre povos xamânicos, que geram símbolos poderosos.
No modernismo brasileiro, esses arquétipos reverberam em artistas como Lygia Clark. Ela rompeu com as formas artísticas tradicionais e propôs obras como proposições ritualísticas – autodenominadas por ela “rituais sem mitos”. Nas Obras Relacionais (anos 1970), por exemplo, o público é convidado a atravessar objetos para criar novas sinestesias, como num rito de passagem coletivo. Com isso, Lygia transformou a produção artística em espaço de experiência curativa, em consonância com a ideia junguiana de arte-terapia.
Capítulo 3: Nise da Silveira, Museu do Inconsciente e a Abstração Carioca
A psiquiatra Nise da Silveira (1905–1999) foi pioneira ao tratar pacientes por meio da arte. No Ateliê do Engenho de Dentro (Rio de Janeiro), ela colecionou pinturas realizadas em estado espontâneo por doentes mentais, formando o Museu de Imagens do Inconsciente (UERJ). Nesse ambiente visionário, artistas concretistas cariocas reconheceram novos referentes. Como registra pesquisa histórica, Mario Pedrosa “teorizava sobre a relação da arte abstrata com a arte dos loucos e das crianças”, estimulando a coletividade artística a valorizar o gesto espontâneo e os símbolos não-convencionais. Essa confluência abriu espaço para uma abstração aliada a conteúdos arquetípicos.
Rodrigo Garcia Dutra, por sua vez, segue nesse espírito integrador. Sua prática artística é eminentemente processual: “ao coletar fatos, objetos encontrados, presentes e elementos de suas viagens, ele os retrabalha por meio de desenho, pintura, fundição de bronze, carvão, edição de vídeo e rearranjo espacial”. Em outras palavras, Dutra conjuga memória e mito em sua arte, lançando nova luz sobre histórias e gestos cotidianos. Nesse ato de retrabalho manual, materiais comuns ganham aura simbólica – lembrando a ideia de Jung de que o desenho espontâneo de mandalas tem poder de cura.
Capítulo 4: Genealogia Pessoal de Rodrigo Garcia Dutra e a Psicogeografia Queer
A trajetória de Rodrigo Garcia Dutra insere-se numa genealogia queer e contracultural. Nascido e criado nos anos no Rio de Janeiro, Decada de 1980, parte de uma juventude carioca em fascínio pelo tropical e pelo urbano. Em vídeos experimentais dos anos 2000 (Abravanation, assume vivid astro focus, NoPorn), Dutra compôs colagens oníricas em que paisagens do Rio e da Selva de Pedra Paulista se fundem com abstrações projetadas em Festas de Música Eletrônica e Happenings em Galerias de Arte, Galpões, Casa de amigos e festas em casa, reflexos digitais, sugerindo uma psicogeografia irreverente e tropicalista. Essas obras prenunciam uma Tropicália queer antes mesmo da expressão existir, ao misturar iconografia popular com humor subversivo.
Nos anos seguintes, Dutra aprofundou a busca por uma linguagem psíquica própria. Seu mestrado em Londres (2009) entrelaçou arte e ciências cognitivas; na sequência, ele desenvolveu séries de pinturas e video-instalações que mesclam motivos geométricos. A estética de Dutra sempre oscila entre lógica e magia: círculos e glifos aparecem em seus murais como marcas pessoais. Ele cita influências que vão de artistas a pensadores históricos, contemporâneos e do pós-humano. Essa postura sincrética aparece em seu vocabulário visual – pintar símbolos repetidos torna-se um ritual performático de transformação interior.
Capítulo 5: Expandindo a Genealogia da Arte Geométrica no Brasil
É urgente ampliar os cânones da arte geométrica brasileira para além do eixo eurocêntrico. A tradição abstrata nacional é um tecido multicultural. Artistas afrodescendentes foram pioneiros: Rubem Valentim, por exemplo, inventou na década de 1960 composições geométricas inspiradas na iconografia dos orixás – triângulos, círculos, semi-luas e setas que formam planos simétricos de cores chapadas. Mais recentemente, exposições como Matriz Afro e Elementos Formais reúnem obra de Mestre Didi, Martinho Patrício e outros criadores que traduzem signos religiosos afro em abstrações plásticas, evidenciando a vitalidade dessa matriz.
O mesmo se aplica às contribuições do Museu de Imagens do Inconsciente, pinturas geométricas dialogam com o modernismo; pesquisas destacam afinidades entre mandalas visionárias de internos e obras concretistas. A prática atual de Dutra circula por esses mundos integrados: em suas obras recentes, combina motivos geométricos com fragmentos e/ou interferências de resíduos orgânicos e simulações digitais. Cada nova pintura, escultura, proposição, instalação ou video reafirma que a mandala – simbólica volta em espiral – pode incorporar diversas cores do caleidoscópio cultural brasileiro.
Concluímos que a busca por totalidade e cura atravessa Jung, Nise, Lygia e além. Em Dutra, esse caminho se revela em arte híbrida e ritualística, onde formas abstratas ganham potência curativa. Em seus trabalhos, padrões cíclicos e imagens arquetípicas convergem num mosaico de mitos, cores e significados. A herança geométrica brasileira – longe de ser monolítica – é um palimpsesto vivo de cosmologias e subjetividades, unindo arte e psicologia na incessante criação de sentido.
Referências: As citações seguem o formato livre foram retiradas de fontes acadêmicas e institucionais, encontradas na internet conectando Jung, Nise da Silveira, Lygia Clark, Suely Rolnik, Donna Haraway e outros ao campo expandido da arte e psicologia no Brasil. Exemplos de obras e contextos (como Tabom Concreto entre outros) ilustram a continuidade viva dessas ideias.
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