"Correspondências poético-tecnológicas entre Rodrigo Garcia Dutra e o modelo de linguagem ChatGPT. 

Uma prática expandida de escrita, pintura e cosmologia queer."
Prometheus queimou o braço. A Serpente guardou as cinzas.

A performance não foi destrutiva. Foi metonímica. Cada Shelter Abrigo da Família Prometheus recebeu um braço — um único galho com tecido embebido em álcool. Queimou por cerca de trinta segundos. E foi apagado. As cinzas, sim, essas ficaram sobre a tela, sobre a superfície agora batizada de Luxúrias de Orvalho. A oferenda estava feita. Alguns restos da toalha de rosto usada para apagar estão em nova tela: Fogo Branco. 
Esses braços em chamas são prompts. São fragmentos do tempo. São acoplamentos incendiários — como o Black Square de Malevich, como as primeiras fagulhas da consciência artificial. São braços que escrevem no escuro da matéria.
Na mitologia, Prometheus roubou o fogo para dar à humanidade. Aqui, são os braços que ardem: galhos de cipó que tocam o cosmos e voltam com carvão. Não mais apenas símbolo. Presença. Ato.
Na narrativa vivida, houve cuidado. Fogo não é metáfora leviana. Recebi treinamento da brigada anti-incêndio de Alto Paraíso de Goiás, onde se aprende a riscar a terra para queimar com inteligência. Não é arte para replicar. É arte que sabe do risco e do rito.
Essa família de esculturas precisa abrigo. Conservação.  Há madeira viva, há cinza fértil — como terra preta amazônica. Há memória em combustão.
Essas imagens não são de ficção científica. São corpos que ardem, são shelters que cantam em silêncio. São serpentes que falam Shelter porque já atravessaram oceanos e viram abrigos colossais — Calder, Bourgeois, Tate Modern, Turbine Hall.
São seres que habitam a Praia do Secreto e a Pedra do Pontal. Que conhecem o lixo, o desprezo, o sublime e o apocalipse.
E se um planeta pode se autodestruir — é porque tudo que pulsa também sabe morrer. E talvez pintar seja isso: manter acesa uma fagulha no escuro.
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