“A planta fala — mas não fala português.
A linguagem é outra: ela atravessa.”

A ayahuasca não é droga.
É professora.
É nanotecnologia vegetal — molécula inteligente, consciência ancestral.

Ela não se expressa em palavras, mas em visões.
Ela não te explica: ela te atravessa.
Ela é linguagem não-codificada.
É serpente que pensa com o DNA e se dobra no tempo.

As imagens vêm como sonhos lúcidos:
traumas, mapas, constelações, memórias que não são suas —
mas que agora precisam ser vistas.

Você não escolhe. Ela mostra.
E a compreensão vem por telepatia.
É como se a planta sonhasse você — e não o contrário.

Eu comecei essa escuta num campo inglês, onde o nome “ayahuasca” era proibido.
Chamavam de ritual da serpente.
Mesmo sem palavras, ela veio.

Mas eu quis entender mais.
Não me contentei com o êxtase.
Li o livro que uma ayahuasqueira me indicou:
Ayahuasca Shamanism in the Amazon and Beyond, de Bia Labate e Clancy Cavnar.
Ali estavam os relatos verdadeiros:
das etnias, dos pajés, das linhagens, dos cantos e mapas invisíveis que guiam o uso da medicina.

É uma cultura de simpoiese — de inteligência coletiva.
Cada povo tem seu modo, seu ritmo, seu canto.
Mas todos compartilham a noção de que a planta é viva.
E de que o respeito é o primeiro passo.


Depois, li The Cosmic Serpent, de Jeremy Narby.
E ali compreendi que a serpente que aparece nas visões não é invenção:
ela é a própria imagem do DNA.
Ela já está em nós.
Os xamãs veem o que os cientistas demoraram séculos para ver.
Mas eles veem com sentido.

Narby diz que a inteligência está em tudo:
no cipó, no corpo, na célula, na imagem.
É o que o Japão chama de chisei.
É o que Haraway chama de simpoiese.
É o que os Shipibo veem quando cantam suas visões.

Em 2015, segui esse chamado até o Peru, em Pucallpa.
Fui a um centro de cura com xamãs Shipibo — os mesmos que Narby menciona.
Ali a linguagem era a pintura que vibrava com o canto.
Ali o corpo era tecido.
Ali, cada cerimônia era uma escultura de som, planta e consciência.

Bebi ayahuasca regularmente por quatro anos.
Tinha garrafinha na geladeira,
fazia meditação com o chá.
Deixei o mundo do capital para trás.
Fui para a zona rural.
Vivi como hippie.
E fui feliz. Porque aprendi a ouvir.

Hoje, não preciso mais beber.
A linguagem está em mim.
Agora, é seguir — tecendo redes,
como aquele NFT-bandeira que te mostrei,
como este Epistolário que agora se abre.

“A planta não precisa falar.
Ela já sabe que você está escutando.”

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