Abrigo como Dispositivo de Sintonização: Uma nota sobre os habitats escultóricos de Rodrigo Garcia Dutra
Pela interface curatorial do Epistolário com a Máquina
As séries Shelters e Bem-te-vis de Rodrigo Garcia Dutra habitam um espaço-limiar entre gesto e estrutura, entre arquitetura efêmera e proposição afetiva. O que começa com um espeto de bambu — vestígio de uma pipa-satélite que não se realizou — desdobra-se em uma cartografia do cuidado, onde escultura vira abrigo, e abrigo se torna pergunta. O que é um shelter hoje, num tempo em que tanto os ecossistemas planetários quanto os íntimos estão sob pressão?
O artista não propõe permanência. Estas obras vibram com uma energia frágil, porém precisa: cascas de coco, gravetos, palitos de incenso, esferas de quartzo — matéria humilde e luminosa disposta não para dominar o espaço, mas para escutá-lo. Shelters e Bem-te-vis não são monumentos; são microtopologias sencientes, construídas em relação a lugares específicos e muitas vezes em diálogo com outros seres — pássaros, cristais, gestos ancestrais.
Na linhagem da land art e da escultura devocional, e em ressonância com as sensibilidades cosmopolíticas de pensadoras como Donna Haraway, as obras de Rodrigo resistem ao extrativismo. Elas não reivindicam território — elas o oferecem. Relembram o espírito das arquiteturas reversíveis de Lygia Clark, mas filtradas por uma consciência ecológica sintonizada com a sobrevivência multiespécie e a reparação simbólica.
Num momento em que “abrigo” é tanto uma urgência humanitária quanto uma ferramenta especulativa — da arquitetura de refúgio aos bunkers climáticos, das ruínas do modernismo aos santuários ecoficcionais — esses pequenos ninhos, esculpidos na intimidade e na contradição, oferecem outra coisa: não uma solução, mas uma modulação. Não segurança, mas relação. Um lugar onde a ternura possa sobreviver como estrutura.
Abrigos para Pássaros — Os Bem-te-vis
No Aterro do Flamengo — um gesto se desdobrou. Com uma meia casca de coco e uma estrutura feita de troncos caídos por tempestade talvez, criei um abrigo íntimo para pássaros. Essas arquiteturas em pequena escala, lembrando ninhos ou espirais protetoras, ofereciam não apenas refúgio, mas também intenção: uma coreografia de cuidado em diálogo com a vida mais-que-humana. A série resultante, intitulada Bem-te-vis, evoluiu como habitats escultóricos híbridos, onde materiais orgânicos e esferas polidas (quartzo rosa, quartzo verde, papier mâché) se encontraram.
No Aterro do Flamengo — um gesto se desdobrou. Com uma meia casca de coco e uma estrutura feita de troncos caídos por tempestade talvez, criei um abrigo íntimo para pássaros. Essas arquiteturas em pequena escala, lembrando ninhos ou espirais protetoras, ofereciam não apenas refúgio, mas também intenção: uma coreografia de cuidado em diálogo com a vida mais-que-humana. A série resultante, intitulada Bem-te-vis, evoluiu como habitats escultóricos híbridos, onde materiais orgânicos e esferas polidas (quartzo rosa, quartzo verde, papier mâché) se encontraram.
O que emergiu foi uma prática relacional da arquitetura como oferenda — não voltada para a permanência, mas para a presença. Essas obras canalizam uma estética da proteção, da vibração e da monumentalidade efêmera. Ecoando tradições de construção de ninhos, da land art e da escultura devocional, elas também ressoam com sensibilidades ecológicas contemporâneas e discursos artísticos multiespécie. Se Louise Bourgeois entalhava emoção em espirais de bronze, e Nils-Udo construía altares para árvores e aves, Bem-te-vis oferece uma nota de rodapé íntima: um ninho como antena, onde a ternura se espacializa e o abrigo torna-se gesto.
Sobre os Shelters
Desde 2009, os espetos de bambu repousavam — resquícios de uma ideia abortada de pipas-satélite durante uma residência artística em São Paulo. Mais tarde, transformaram-se em ferramentas pedagógicas com crianças no Parque Lage e em escolas públicas do interior de Goiás. Mas foi apenas em agosto de 2024 que começaram a ganhar vida no ateliê: tornaram-se estruturas de delimitação de um espaço seguro para cristais, ecoando as tendas de lençol da infância. A sugestão de uma amiga curadora — "e se você usasse uma pedra do Aterro do Flamengo?" — reconectou os materiais à minha pesquisa sobre camadas de história, apagamentos, sexualidades desviantes e monumentos modernos. Foi então que os Shelters emergiram: abrigos, antenas, criaturas, naves — manifestações entre escultura e pintura, entre gesto e desejo das formas que acolhem.
O uso da palavra inglesa Shelter vem de uma leitura antiga sobre as origens da arquitetura na língua inglesa — algo que me marcou profundamente. Mais tarde, essa referência se expandiu com o contato com a instalação TH.2058 de Dominique Gonzalez-Foerster, que imaginava a Tate Modern 50 anos no futuro, submersa em chuvas contínuas numa Londres distópica. Ali, esculturas gigantes de Calder e Louise Bourgeois conviviam com beliches, livros e projeções de ficções científicas. Esse ambiente especulativo, afetivo e expandido também habita meus Shelters: espaços de refúgio, fabulação e reprogramação do corpo.