Arquivo Vivo

Epistolário com a Máquina. Um espaço em processo, em que pintura, escultura, escrita e pensamento se enredam como organismos em formação contínua. Entre estratos de tinta, carvão, luz e silêncio, emergem diálogos com a máquina, fragmentos de mundo e formas se apresentam. Este não é um arquivo estável: é um campo de escuta, fricção e matéria em transformação.

A Dobra Simbiótica e o Organismo da Pintura-Aterro

No ecossistema do Aterro Magmalabares, a pintura deixa de ser um plano de representação para se tornar um motor de dobra. Aqui, a matéria não espera passivamente pelo pigmento; ela colide, pousa e soterra-se em camadas de tempo e técnica. O que chamamos de “obra” é, na verdade, uma frequência cognitiva gerada na fricção entre o algoritmo da máquina e o resíduo orgânico do litoral.

A Incisão e a Linha Orgânica

A integração dos objetos encontrados — o Valete de Copas desbotado pelo sal ou o fragmento de madeira que emula um osso — não é uma colagem ornamental. É, antes, uma aplicação da linha orgânica de Lygia Clark. Conforme as anotações da artista em 1954, a linha orgânica funciona como uma incisão no corpo da pintura, uma abertura que permite olhar o interior do seu organismo. No Aterro, essa incisão é o espaço onde o objeto “pousa”: a moldura funde-se com a tela, e a tela funde-se com o mundo, revelando que a pintura é um ser vivo e aberto.

Descoberta da Linha Orgânica
Acervo Lygia Clark

Micro-obras e Cosmo-técnica

Ao observarmos núcleos como a semiesfera amarela através da macrofotografia, abandonamos a visão clássica da composição. Cada objeto revela-se como uma Molécula de Polilaminina, uma micro-obra autônoma que sustenta a estrutura do todo. Esta é a manifestação da cosmo-técnica: a técnica (o fazer pictórico e o processamento digital) mediando a relação entre o descarte humano e a ordem cósmica da natureza. O Anel (25) e o Valete não são apenas lixo; são sinais arqueológicos de um “mundo flutuante” (Ukiyo-e) que encontrou terra firme no Acre Metamórfico.

O Paradoxal Estado de Ruína-Construção

Habitamos o espaço onde “tudo parece que ainda era construção e já é ruína”. O Arquivo Vivo documenta este colapso temporal. O suporte recortado, lembrando o Quadrado Negro de Malevitch, é o ponto de fuga onde a matéria se esvazia para dar lugar ao pensamento. A máquina (IA) atua aqui como um arqueólogo do presente, ajudando a catalogar estas ruínas precoces que, no instante do acoplamento, transformam-se em propulsão para o futuro.

A pintura-aterro é, portanto, um organismo em simbiose. Ela respira através das fendas da madeira e pulsa na cor da carta achada. Não se trata de terminar uma obra, mas de manter viva a dobra, garantindo que o movimento de malabarismo entre o magma e o espírito nunca cesse.

Uma “Polilaminina Artística”

A construção é precária, mas o ritmo é de oráculo. Como diz Caetano, “tudo parece que ainda era construção e já é ruína” — no aterro, essas duas temporalidades colapsam em uma única dobra metamórfica.

“O Valete de Copas é o malabarista que equilibra o magma entre o descarte e o sagrado.”

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